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O que a IFPA -The Conference & Expo espera de nós?

Por Afonso Abelhão

Disseram que estou me preparando para uma gala, e achei curioso, porque nunca aprendi a me vestir; tudo o que visto é aquilo que o tempo, a terra e as pessoas conseguiram fazer de mim, como se cada tonalidade do meu vermelho fosse menos uma cor e mais a lembrança de um caminho percorrido em silêncio.

Meu brilho não é um acabamento.

É a memória da chuva que chegou na hora certa, do sol que soube esperar, das madrugadas em que alguém caminhou entre as fileiras para decidir que ainda não era o momento de me colher, porque algumas coisas não amadurecem pela vontade de quem as espera, mas pela paciência de quem aprendeu a escutá-las.

Os homens costumam acreditar que as grandes apresentações começam quando as luzes se acendem e as portas finalmente se abrem, mas a natureza nunca pensou assim; ela sabe que todo espetáculo acontece primeiro no escuro, debaixo da terra, dentro da semente e no silêncio onde nada parece acontecer, justamente porque é ali que tudo está acontecendo ao mesmo tempo.

Talvez por isso eu nunca tenha compreendido por que chamam uma feira de exposição.

Nada do que chega até ela nasceu para ser exposto.

Nasceu para ser cuidado.

Existe uma diferença delicada entre as duas coisas.

Expor é tornar algo visível.

Cuidar é permitir que algo exista.

Antes de existir uma embalagem, existiu uma estação inteira desenhando meu destino; antes de existir uma marca, existiu uma paisagem moldando meu sabor; antes de existir uma promessa impressa numa caixa, existiu alguém disposto a confiar no invisível, trabalhando todos os dias sobre aquilo que ainda não podia ser visto.

Enquanto me acomodam cuidadosamente na embalagem que fará minha última viagem, escuto dizerem que ela existe para me proteger.

Não tenho tanta certeza.

Talvez ela exista para proteger tudo aquilo que não cabe dentro de uma fotografia: o conhecimento acumulado ao longo de gerações, as tentativas que fracassaram antes de dar certo, as escolhas quase imperceptíveis que definiram quem eu me tornei e o cuidado que nunca aparece na etiqueta, mas permanece inteiro na experiência de quem me encontra.

Toda embalagem leva uma fruta.

As melhores carregam uma história.

Aprendi outra coisa enquanto amadurecia.

As pessoas imaginam que valor seja aquilo que conseguem medir, pesar ou comparar, como se bastassem números para traduzir aquilo que a terra levou meses construindo; no entanto, a natureza sempre trabalhou com outra espécie de medida, uma medida que não conhece balanças nem planilhas, mas reconhece o tempo, a dedicação e a delicadeza com que alguém insiste em fazer bem aquilo que quase ninguém verá.

Talvez por isso o design sempre me pareça menos uma questão de forma do que uma questão de intenção.

Escolher uma cor, um espaço vazio, uma textura ou uma palavra nunca foi apenas uma decisão estética; é uma maneira silenciosa de responder à pergunta que atravessa qualquer criação humana: o que merece ser visto?

E aquilo que decidimos tornar visível revela, inevitavelmente, aquilo que escolhemos valorizar.

Também ouço falarem muito sobre branding.

Sorriu quem acredita que uma marca mora na tinta impressa sobre o papel.

As marcas nunca viveram ali.

Elas habitam a lembrança, porque são uma tentativa profundamente humana de fazer com que a confiança sobreviva ao encontro, de modo que, quando o sabor desaparecer e a fruta já não estiver presente, permaneça a certeza de que vale a pena voltar.

Agora todos se perguntam o que encontrarão na IFPA The Conference & Expo.

Daqui, onde repouso, a pergunta parece caminhar na direção contrária.

O que a feira espera de nós?

Talvez ela espere menos respostas do que imaginamos e muito mais disponibilidade para enxergar.

Olhos capazes de perceber que nenhuma inovação nasce diante de um estande iluminado, porque ela começa muito antes, quando alguém olha para o mesmo campo de sempre e recusa a ideia de que ele precise continuar produzindo do mesmo modo, descobrindo que inovar talvez seja apenas aprender uma nova maneira de prestar atenção.

É por isso que não acredito que uma feira reúna apenas produtos.

Ela reúne maneiras de olhar o mundo.

Algumas ainda enxergam frutas.

Outras já conseguem enxergar relações invisíveis entre o solo e a ciência, entre o agricultor e o consumidor, entre a tecnologia e a natureza, entre aquilo que alimenta o corpo e aquilo que, silenciosamente, constrói confiança.

Talvez essa seja a verdadeira gala.

Não a celebração do que chegou pronto, mas o reconhecimento de tudo aquilo que precisou permanecer invisível para que, um dia, pudesse finalmente aparecer diante de alguém disposto a compreender que nenhuma fruta amadurece sozinha.

Se alguém passar por mim e enxergar apenas um morango, terei cumprido apenas o destino da natureza.

Mas, se alguém conseguir perceber o tempo escondido dentro da minha cor, a inteligência silenciosa contida na minha embalagem e a quantidade de pessoas que habitam, sem jamais serem vistas, cada centímetro daquilo que sou, então deixarei de ser apenas um fruto.

Serei uma história.

E talvez seja justamente isso que toda grande feira espere de nós: não que sejamos admirados pelo que mostramos, mas que sejamos capazes de revelar tudo aquilo que precisou permanecer invisível para que o extraordinário pudesse, enfim, parecer simples.

Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, presidente da APP BRASIL, conselheiro do IVC e do CONAR.

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