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Garra é pra quem tem, por Afonso Abelhão

Estou no assento do meio, no avião, a caminho de Belém para participar do FEST’UP, é o meu primeiro artigo escrito nas alturas e espero sinceramente que esteja à altura das pessoas nele citadas.

Troféus são objetos curiosos. Não servem para abrir garrafas, dificilmente combinam com a decoração da sala e, depois de algum tempo, desenvolvem uma extraordinária capacidade de juntar poeira. Mesmo assim, nós os amamos.

Talvez porque um troféu seja uma das maneiras para tentar realizar uma tarefa quase impossível: parar o tempo por alguns segundos, só por uns segundos, porque como disse Albert Einstein: “A vida é igual a andar de bicicleta. Para manter o equilíbrio é preciso se manter em movimento.” E este ano a ciência está intrinsecamente conectada às vidas de pessoas especiais, que fazem do movimento um projeto de vida.

Olhar para a trajetória de alguém, para as milhares de horas que ninguém viu, para as escolhas que deram certo e principalmente para aquelas que deram errado, para as reuniões intermináveis, os projetos que quase morreram, as ideias que alguém achou absurdas, os clientes que disseram não, os chefes que disseram talvez, os funcionários que disseram “precisamos conversar”, os domingos trabalhados, os aeroportos, os briefings, e na certeza de que o mercado é incerto.

Talvez seja exatamente essa a beleza do Prêmio Contribuição Profissional – Troféu Garra, idealizado por José Francisco Queiroz, em 1997, chega agora à sua 25ª edição, ele não pergunta apenas quem fez o melhor trabalho, quem ganhou mais prêmios, quem apareceu mais, quem teve a campanha mais comentada ou quem colocou mais leões e outros animais metálicos na estante. Não é preciso fazer campanha, não precisa comprar mesa, aliás, os vencedores até o momento da revelação nem sabem que estão competindo, e por um simples motivo: não é por um grande case, ou por uma sacada genial, é pelo que fazem diariamente entre o despertar e dormir (às vezes).

Este prêmio faz uma pergunta muito mais difícil: o que você deixou para a profissão?

Porque existe uma enorme diferença entre sucesso e contribuição.

Sucesso pode ser individual. Contribuição nunca é.

Contribuir vem de acrescentar uma peça à construção coletiva, melhorar um mercado que já existia antes de nós e que, esperamos, continuará existindo muito depois que tivermos esquecido a senha do nosso e-mail corporativo.

E talvez seja por isso que a palavra legado seja tão importante quando falamos do Troféu Garra.

Legado não é currículo. Currículo é aquilo que você fez.

Legado é aquilo que passou a existir porque você fez.

Essa diferença parece pequena.

Não é.

Uma indústria como a comunicação é construída por milhares de pessoas que passam por ela e deixam alguma coisa para trás: uma ideia, uma empresa, uma campanha, uma metodologia, um talento formado, uma inovação, uma provocação, uma maneira diferente de liderar ou simplesmente uma porta que alguém decidiu abrir para que outras pessoas pudessem passar.

Por isso foram reconhecidos, em:

– Liderança, Filipe Bartholomeu;

– Atendimento e Negócios, Tatiana Pasquali Pacheco Rosa;

– Mídia, André Scaciota;

– Criação, Sophie Schönburg;

– Tecnologia e Inovação, Nina da Hora;

– ESG – Diversidade e Inclusão, Ariel Nobre;

– Veículos e Plataformas, Priscila Stoliar;

– Marketing e Marcas, Samantha Almeida;

– Planejamento e Estratégia, Ana Luiza Couto;

– Comunicação e Conteúdo, Marcelo de Salles Gomes;

– Educação, Eric Messa;

– Gestão e Transformação, Carol Boccia.

E aqui, faço questão de não colocar para qual empresa trabalham, isso é irrelevante, somos muito mais do que: fulana, CEO da empresa Y. Aqui celebramos o CPF, não o CNPJ, este é o prêmio que se leva pra casa, não fica na estante das empresas, atrás da recepcionista.

Nas regionais da APP, a história continua, porque uma indústria nacional só é verdadeiramente nacional quando reconhece também quem transforma mercados regionais.

– Cássio Botelho, APP Campinas;

– Fernando Oliveira, APP Lins;

– Fabiano Facina, APP Marília;

– Quelen Cristina Frutuoso Amaral Torres, APP Sorocaba;

– Giselle Estefano, APP Vale do Paraíba.

Eeste ano, uma homenagem nos obriga a deslocar um pouco o olhar para fora da nossa própria indústria, do nosso umbigo.

Porque existem coisas que nenhum Cannes Lions consegue resolver.

Existem problemas que não melhoram com reposicionamento de marca.

Existem dores para as quais não existe storytelling.

E existe uma brasileira que passou mais de duas décadas olhando para uma das fronteiras mais duras da medicina e fazendo uma pergunta aparentemente simples: será que podemos devolver movimento a quem o perdeu?

A bióloga, professora e pesquisadora Dra. Tatiana Sampaio, da UFRJ, lidera uma trajetória de pesquisa em torno da polilaminina, substância experimental estudada para lesões da medula espinhal. O trabalho, iniciado há mais de duas décadas, atravessou laboratório, modelos experimentais, desenvolvimento tecnológico, parceria com a indústria e exigências regulatórias até chegar, em 2026, à fase 1 de um estudo clínico autorizado pela Anvisa.

E aqui existe uma coisa muito importante.

Nós não estamos premiando uma cura.

A ciência não funciona assim.

Não existe botão de “impulsionar resultado”.

Não existe algoritmo capaz de transformar hipótese em certeza durante a madrugada.

Não existe apresentação de PowerPoint que faça uma etapa clínica desaparecer porque o prazo está apertado.

Ciência exige uma virtude que a nossa época desaprendeu: a paciência.

A fase inicial autorizada pela Anvisa tem como objetivo verificar a segurança da polilaminina, e somente etapas posteriores poderão avaliar sua eficácia de forma mais ampla. A própria prudência faz parte da grandeza dessa história.

E talvez seja exatamente por isso que a homenagem à Tatiana faça tanto sentido num prêmio chamado Contribuição Profissional.

Seria muito fácil premiar apenas chegadas. Muito mais interessante é reconhecer a jornada.

Estamos olhando para uma pesquisadora que decidiu enfrentar uma pergunta enorme, que passou anos em laboratório quando ninguém estava aplaudindo, que viu avanços, obstáculos, expectativas, burocracias, esperança e responsabilidade se acumularem ao redor de seu trabalho e que continua fazendo aquilo que todo pesquisador precisa fazer quando a resposta ainda não chegou: continuar.

Este troféu, para ela, não diz: “Parabéns, você chegou.”

Diz: “Continue.”, ou no jargão de um publicitário: “Keep Walking”

Continue pesquisando.

Continue perguntando.

Continue testando.

Continue duvidando.

Continue buscando.

Continue quando o resultado demora.

Continue quando a burocracia parece maior que o laboratório.

Continue quando alguém disser que é impossível.

Continue porque existem famílias esperando.

Continue porque existem pessoas que um dia andaram e hoje não andam.

Continue quando duvidam da capacidade de uma mulher em liderar uma pesquisa tão inovadora.

Continue porque, em algum lugar, alguém gostaria apenas de mover novamente aquilo que nós movimentamos todos os dias sem sequer perceber o milagre envolvido.

Talvez seja essa a palavra mais importante desta premiação.

Movimento.

Pensando bem, todos os homenageados do Troféu Garra fazem exatamente isso.

Filipe, Tatiana Pasquali, André, Sophie, Nina, Ariel, Priscila, Samantha, Ana Luiza, Marcelo, Eric e Carol colocaram coisas em movimento.

Cássio, Fernando, Fabiano, Quelen e Giselle colocaram seus mercados em movimento.

Uma indústria só evolui porque algumas pessoas se recusam a aceitar que as coisas precisam continuar exatamente onde estão.

Elas deslocam. Provocam. Incomodam. Inventam. Ensinam. Abrem espaço. Puxam alguém. Empurram alguma fronteira.

E deixam o mercado alguns centímetros adiante de onde o encontraram.

Por isso a Dra. Tatiana Sampaio é a imagem tão bonita nesta edição do Troféu Garra.

Uma pesquisadora que dedica boa parte da vida a estudar como devolver movimento.

E, sem perceber, acabou nos oferecendo uma definição extraordinária de legado.

Legado não é aquilo que deixamos para trás.

É aquilo que continua se movendo depois de nós.

Então, no dia 13 de outubro, quando cada homenageado receber o seu Troféu Garra, não estará recebendo apenas um objeto para colocar numa estante, receberá uma enorme responsabilidade para continuar.

Porque o prêmio Garra não foi feito para dizer: “cheguei”.

Foi feito para dizer: “eu ainda não soltei.”

E, para uma cientista que decidiu dedicar a vida a buscar movimento onde o movimento foi interrompido, talvez a homenagem mais bonita que possamos fazer não seja um aplauso.

É uma frase.

Uma frase pequena diante de mais de vinte anos de pesquisa.

Uma frase pequena diante de uma pergunta tão grande.

Uma frase que serve para Tatiana.

Que serve para cada homenageado.

E que, no fundo, talvez sirva para todos nós: continue.

Porque há prêmios que celebram onde você chegou.

O Troféu Garra celebra aquilo que, graças a você, ainda pode ir mais longe.

Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, presidente da APP BRASIL, conselheiro no IVC e no

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