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IA não roubou emprego, ela está roubando budget

Ligia Kallas

Passamos os últimos anos contabilizando quantas vagas de trabalho seriam
perdidas para a inteligência artificial e como estar à frente da tendência, mas
talvez estivéssemos olhando para o lugar errado. A IA chega com diversas
promessas e quem não entrasse nessa empreitada, estaria – invariavelmente – de
fora. Especialmente nos últimos dois anos, muitas empresas aderiram à IA por
medo de ficar para trás. O FOMO corporativo tomou outra dimensão. Depois do
extremo hype, chegou a hora de racionalizar. Já estamos na crista da onda, bora
entender como faz para surfar direitinho.

O questionamento deixou de ser SE uma empresa usa inteligência artificial ou se
deveria usar. O que importa agora é saber quanto a IA custa para o seu orçamento
e se alguém consegue, de fato, comprovar o retorno desse investimento. Hoje,
muitas empresas continuam aumentando os aportes em IA mesmo reconhecendo
que talvez os custos de licenças, integração e usabilidade são altos e essa
percepção escancara uma nova realidade: Achávamos que a IA substituiria
pessoas na velocidade da luz, mas a verdade é que o maior impacto dela está no
consumo de uma fatia crescente do orçamento de marketing e tecnologia.

Na era A.IA. – Antes da IA – o orçamento do marketing era dividido entre pesquisa, mídia, produção, eventos, tecnologia, CRM e outras várias categorias que contemplavam o enxoval de comunicação. E esse escopo orçamentário só fez
crescer e se ampliar na última década, mas hoje surge uma nova categoria de
despesas extremamente específica e onerosa: licenças de IA, agentes,
automações, infraestrutura, consultorias, treinamento de equipes e integrações.
Sem deixar de lado o fascínio quase colecionista que essa tecnologia desperta…
tem gente trabalhando com quatro, cinco, dez IAs ao mesmo tempo.

A dor hoje é que muitas marcas e empresas ainda não conseguem afirmar com
segurança se esse investimento está gerando retorno proporcional. Está em xeque
o balanço da entrega vs o quanto custa pros cofres corporativos. Especialmente
para a cadeira de MKT, onde a eterna busca da mensuração dos resultados norteia
decisões estratégicas cresce a pressão para justificar esses gastos diante dos Clevels das companhias. Ou seja, a disputa deixou de ser “IA versus pessoas” e
passou a ser “IA versus outras prioridades do orçamento”.

São diversas as perguntas a serem feitas, especialmente se os olhares dos
gestores das grandes empresas estão realmente voltados ao impacto real da IA no
dia a dia. Mais do que entender a importância da ferramenta é preciso avaliar
como e quanto a implantação dela é necessária e viável. Estamos comprando
produtividade ou apenas acumulando assinaturas? O budget economizado em
produção está sendo reinvestido em tecnologia? Quem controla essa nova
despesa: Marketing, TI, RH ou Compras?

As empresas estão deixando a fase de experimentação irrestrita e entrando na
fase da governança da IA. Abraçamos com muita pressa uma tecnologia que
prometeu reduzir custos, mas, em muitos casos, criou-se apenas uma categoria
de despesas que ainda precisa provar seu valor. E talvez a Inteligência Artificial
nunca tenha roubado empregos como imaginávamos, mas com certeza ela já
conquistou um espaço impactante no budget das companhias e, diferente de
tendências, orçamento precisa fechar a conta

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