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A IA vai nos obrigar a voltar a ser humanos

Vamos tomar um café?

“O perigo de verdade não é que computadores passem a pensar como humanos, mas sim que humanos passem a pensar como computadores.”  Sydney J. Harris, jornalista

Como eu sempre disse: a tecnologia é só o meio; nós somos o fim. O perigo começa no dia em que a gente esquece disso.

Zygmunt Bauman já havia diagnosticado o terreno. Na tese da Modernidade Líquida, ele descreve o derretimento das velhas estruturas sólidas e a chegada de uma era de fluidez, volatilidade e incerteza — em que instituições e laços humanos perdem a permanência e deixam de ser feitos para durar. Décadas depois, ninguém precisa de sociólogo para sentir isso. Basta abrir o celular.

O mundo anda chato. Excesso de conteúdo cada vez mais neutro, sem personalidade, sem consistência. Há muito mais gente querendo falar do que gente disposta a ouvir — apesar de a espécie seguir nascendo com dois ouvidos e uma só boca.

E agora, para completar, a única opinião que parece importar é a da tal IA.

Ainda ontem, a opinião que valia era a dos pais, da família, dos amigos de verdade e, naturalmente, a nossa. Depois, a tecnologia incorporou dois novos opinadores que em pouco tempo se tornaram tão importantes quanto: as ferramentas de busca e as redes sociais. Deixou de bastar ser aquilo que gostaríamos de ser. Passou a valer mais ser aquilo que o algoritmo gostaria que fôssemos — ou chegar o mais perto possível do que o senso coletivo de “qualidade” do momento elegeu como boa referência.

Hoje vivemos um terceiro tempo: o da crise de existência. Boa parte do que aprendemos nos últimos dez anos deixou de importar. Com as IAs, e com o GEO — a disputa por ser citado dentro da resposta, e não listado numa página de links —, a opinião de um bot passou a valer mais do que a de um humano. É ele quem coloca você no Olimpo ou no Tártaro.

Não é impressão. Entre janeiro e abril deste ano, 68% das buscas feitas no Google terminaram sem um único clique, segundo a SparkToro. No Brasil, 46,5% dos consumidores já recorrem com frequência a assistentes de IA para pesquisar ou decidir uma compra, de acordo com o Mapa da Busca no Brasil 2026. A máquina deixou de indicar caminhos. Ela dá o veredito.

Só que tudo na vida é cíclico. E é exatamente por isso que estou otimista.

Acredito que estamos voltando aos tempos de quando eu era “xóvem”. Numa versão aprimorada, claro. Pega tudo, joga no mesmo balaio e sacode com vontade. O que sai dali é um mundo mais feliz. Um mundo em que a IA cuida daquele bando de coisas chatas que fazíamos por pura obrigação — e em que volta com tudo aquilo que sempre funcionou e foi enterrado antes da hora.

Voltam as cartas e as malas diretas. Pelo correio chega, você recebe e abre. Foram aposentadas por causa do custo; com o CAC nas alturas, voltaram a ser uma ótima opção.

Voltam os brindes. Quem é que não gosta de ganhar um brinde? Basta ver, em qualquer evento, a disputa voraz pelos melhores.

Voltam as ligações por voz. Sim, por voz. Nada de texto ou áudio no zap. Você liga — pode ser pelo próprio WhatsApp —, a pessoa atende e responde. A conversa que levaria horas, entre os dois tiquinhos azuis e a angústia da demora, se resolve em trinta segundos.

E o meu preferido de todos: voltam os cafés e os almoços. Que delícia ter tempo para estar ali, presente, diante de pessoas incríveis, colocando a vida em dia, dando risada, criando vínculo e amizade de verdade. Afinal, quem foi que decretou que cliente não pode ser amigo também?

Estou começando a achar que as IAs vão melhorar muito o mundo. Não por pensarem melhor do que nós. Mas porque, ao assumirem o que é mecânico, nos devolvem aquilo que andamos esquecendo nos últimos anos: ser humano.

A máquina fica com a resposta. Nós ficamos com a relação.

Fabio Madia é consultor e mentor de negócios, CMO as a Service com ênfase em pequenas e médias empresas e CEO da Academia Brasileira de Marketing.

Acesse: fabiomadia.com.br e saiba mais.

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