Por Lucia Faria
Outro dia vi em algum lugar as pessoas conversando sobre ranço. Cada uma lembrava de um específico, aquilo que pode não fazer mal a ninguém, mas nos incomoda profundamente. Daí fiquei pensando nos meus vários ranços e resolvi falar aqui sobre aqueles relacionados ao mundo dos negócios, ao universo da comunicação e também à maneira como olhamos para os outros.
Um ranço que me tira do sério é quando alguém, ou uma marca, infantiliza o idoso. Olha para a pessoa como admira um bebê no berço. Envelhecer não significa perder a vitalidade. E muito menos voltar a ser criança. Outro dia, uma jovem me disse que encontrou o Fernando Gabeira na rua e, como não lembrava seu nome, o descreveu como “aquele jornalista velho que aparece na GloboNews”. Imediatamente busquei no Google a foto do Gabeira na praia, após o regresso do exílio, com a parte de baixo do biquíni de crochê da jornalista Leda Nagle. Ela ficou incrédula com aquela imagem. Foi minha oportunidade de mostrar que as pessoas carregam histórias, aventuras, desventuras e que a idade traz rugas sem apagar a beleza.
No dia a dia, tenho ranço de várias marcas que não nos ajudam com as embalagens. Abrir um pote de azeitona ou tirar a tampinha do leite em caixinha pode ser fácil para uns, só que, para muita gente, é quase uma operação de guerra. O mesmo vale para um simples sachê de ketchup. Como abrir sem sentir raiva? Pelo jeito, as marcas investem fortunas para conquistar consumidores, mas algumas parecem esquecer que, depois da compra, precisamos conseguir abrir o produto com facilidade.
Tenho ranço de quem não retorna nossas propostas comerciais. A gente torce pelo sim, aceita o não, só não entende o silêncio. Quantas vezes já passamos horas fazendo aquela proposta urgente, repletos de esperanças, e a pessoa nunca mais dá notícias. Tempos depois a gente ainda vê o trabalho sendo anunciado numa outra empresa. Nesse caso, confesso que o ranço e o ódio quase se confundem.
A confusão entre urgência e falta de planejamento também me provoca aquele ranço básico. Tudo é para ontem, tudo é prioridade, tudo precisa ser resolvido imediatamente. E a urgência de alguns nasce justamente de sua falta de organização. E quem recebe a demanda precisa voar para demonstrar agilidade e comprometimento.
Também tenho ranço de quem reclama de tudo no mundo corporativo, dos clientes, dos funcionários, dos prazos, da remuneração e por aí vai. Pensando nisso, preciso encerrar logo esse texto para não parecer igual a essas pessoas! Não sem antes falar do ranço de quem usa a inteligência artificial para escrever tudo e não revisa nada: terceiriza o pensamento, aceita qualquer resposta e ainda publica como se fosse uma grande reflexão pessoal.
E como sou cheia de defeitos e inseguranças, vou pedir para minha IA favorita dizer se esse artigo pode ferir suscetibilidades e se vale a pena publicar.
(PS. Ela mandou ver! E ainda encontrou alguns defeitos. Acho que também tem seus ranços…)
Lucia Faria é sócia-diretora da LF & Cia Comunicação Integrada e diretora da APP Brasil


