(e nem sempre o cliente é Penélope)
Por: Afonso Abelhão
O lançamento de mais uma adaptação de A Odisseia reacende um velho fascínio: por que, depois de quase três mil anos, ainda nos reconhecemos na história de Ulisses?
Talvez porque todos estejamos tentando voltar para casa.
A diferença é que, para quem empreende na comunicação, “casa” raramente é um lugar. É aquela campanha que finalmente funciona. É o cliente que entende uma estratégia sem pedir “só mais uma mudancinha”. É fechar o mês no azul. É construir uma marca capaz de sobreviver aos algoritmos, às tendências e às reuniões que poderiam muito bem ter sido um e-mail.
Ulisses lutou por dez anos a guerra de Troia e levou mais dez anos para voltar a Ítaca.
Quem abriu uma agência sabe que há semanas que parecem durar mais do que isso.
Na jornada empreendedora, Troia é o momento da coragem. É quando você decide deixar a segurança de um emprego para apostar numa ideia que, curiosamente, faz muito mais sentido para você do que para os outros. Todo mundo acha bonito quando você diz que vai empreender. Até descobrir que isso significa trabalhar nos fins de semana, responder mensagens de madrugada e comemorar quando consegue tirar férias… sem levar o notebook.
Mas existe um detalhe curioso sobre Troia que costuma passar despercebido.
A guerra não terminou porque os gregos eram mais fortes.
Terminou porque alguém teve a coragem de abandonar a força e apostar na inteligência.
O Cavalo de Troia talvez seja a primeira grande estratégia de posicionamento da humanidade.
Não era apenas um cavalo de madeira.
Era uma narrativa.
Uma mudança de percepção.
Uma ideia capaz de transformar um símbolo de derrota em um presente aparentemente inofensivo.
Os troianos não abriram seus portões porque perderam uma batalha. Abriram porque acreditaram em uma história.
E talvez seja exatamente esse o trabalho de quem vive da comunicação.
As grandes marcas raramente vencem porque gritam mais alto ou investem mais dinheiro. Elas vencem quando conseguem mudar a forma como as pessoas enxergam o mundo, criando significados antes mesmo de vender produtos ou serviços.
Todo empreendedor precisa construir, em algum momento, o seu próprio Cavalo de Troia: uma ideia capaz de abrir portas que a insistência, o investimento ou a força jamais conseguiriam abrir.
Porque criatividade nunca foi improviso.
Criatividade é estratégia disfarçada de surpresa.
Depois vêm os Ciclopes.
Na comunicação, eles aparecem de muitas formas. Um cliente que só enxerga um lado da estratégia. Um briefing que nasce cego e termina monocular. Ou aquela crença de que criatividade é um botão que se aperta cinco minutos antes da apresentação.
Ulisses não venceu Polifemo pela força.
Venceu pela inteligência.
Empreendedores da comunicação também aprendem cedo que talento ajuda, mas repertório, estratégia e capacidade de adaptação costumam salvar muito mais projetos do que genialidade.
As Sereias aparecem logo depois.
Hoje elas atendem por nomes modernos: métricas de vaidade, viralizações instantâneas, fórmulas milagrosas e promessas de crescimento sem consistência. Cantam bonito. Seduzem com números impressionantes e oferecem atalhos que quase sempre terminam em becos sem saída, ou naufrágios.
Ulisses pediu para ser amarrado ao mastro.
Empreender exige esse mesmo exercício de disciplina: ouvir as tentações sem abandonar o próprio rumo.
Nem tudo o que faz barulho constrói reputação.
Há também os ventos de Éolo.
Quem nunca recebeu uma oportunidade incrível… e a perdeu porque abriu o saco de ventos antes da hora?
Na comunicação, timing é quase um personagem. Saber quando lançar, quando esperar e quando silenciar vale tanto quanto saber falar.
E então chega Circe.
Ela transforma homens em porcos.
No empreendedorismo, costuma transformar profissionais apaixonados em acumuladores de funções. Você abre uma empresa para criar ideias e, de repente, está negociando contratos, emitindo notas fiscais, resolvendo problemas de TI, respondendo mensagens às dez da noite e tentando lembrar por que escolheu essa profissão.
A magia não está em escapar dessas transformações.
Está em não esquecer quem você era antes delas.
Depois existe o trecho mais filosófico da viagem: descer ao mundo dos mortos.
Todo empreendedor conhece esse lugar.
É quando uma grande conta vai embora. Quando um projeto fracassa. Quando uma campanha não entrega resultado. Quando a dúvida faz mais barulho do que a confiança.
Curiosamente, é justamente ali que Ulisses encontra respostas para continuar.
Na comunicação também acontece assim.
Os maiores aprendizados quase nunca vêm dos cases premiados.
Eles nascem dos erros que ninguém publica nas redes sociais.
E há uma diferença importante entre a mitologia e o mercado.
Ulisses teve a sorte de encontrar Penélope ao final da viagem. Ela esperou dez anos, desfez o próprio tear todas as noites e acreditou que ele voltaria.
Os clientes, felizmente ou infelizmente, não são Penélope.
Eles não esperam dez anos.
Às vezes, não esperam dez dias.
Nem dez horas.
Vivemos o tempo da urgência, da resposta imediata e do resultado para ontem. O desafio do empreendedor da comunicação é equilibrar duas verdades aparentemente incompatíveis: construir reputações leva tempo, mas a ansiedade do mercado não conhece calendário.
Por isso, mais do que criatividade, empreender exige resiliência.
Mais do que talento, exige constância.
Mais do que boas ideias, exige coragem para continuar navegando quando o horizonte desaparece.
No fim, depois de monstros, tempestades, perdas e desvios, Ulisses retorna a Ítaca.
Mas existe um detalhe que sempre me chama atenção.
Ele não encontra apenas uma ilha.
Encontra uma versão diferente de si mesmo.
Talvez essa seja a maior lição para quem empreende na indústria da comunicação.
O objetivo nunca foi apenas conquistar clientes, crescer a empresa ou ganhar prêmios.
Foi tornar-se alguém capaz de atravessar o caos sem perder a curiosidade. De continuar acreditando em boas histórias num mundo cada vez mais apressado. De entender que comunicar nunca foi apenas vender.
É criar significado.
Se Homero escrevesse A Odisseia hoje, talvez Ulisses tivesse um notebook na mochila, um café frio sobre a mesa, quarenta abas abertas no navegador, uma inteligência artificial ajudando na pesquisa e um cliente perguntando, poucos minutos antes da apresentação, se dava para “deixar o logo um pouquinho maior”.
Ainda assim, ele partiria.
Porque todo empreendedor descobre, cedo ou tarde, que o verdadeiro destino nunca foi Ítaca.
O verdadeiro destino é a pessoa que a travessia nos transforma em ser.
Talvez seja por isso que continuamos lendo Homero depois de quase três mil anos.
Não porque desejamos enfrentar monstros ou vencer guerras.
Mas porque seguimos tentando responder à mesma pergunta que inquietava Ulisses: como atravessar o desconhecido sem perder quem somos?
Para quem empreende na comunicação, a resposta talvez esteja no velho Cavalo de Troia.
Não na madeira.
Nem na guerra.
Mas na coragem de acreditar que uma boa ideia, quando nasce da inteligência e da estratégia, continua sendo capaz de abrir portas que nenhuma força conseguiria derrubar.
E, como escreveu Konstantinos Kaváfis, inspirado pela viagem de Ulisses:
“O importante não é chegar a Ítaca, mas quem você se torna durante a viagem.”
Talvez essa seja, afinal, a mais poderosa campanha de comunicação já criada pela humanidade.
Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, presidente da APP BRASIL, conselheiro no IVC e no CONAR.https://www.linkedin.com/in/afonsoabelhao/


