Por Afonso Abelhão
Há quem acredite que o centro do mundo esteja em Wall Street. Outros juram que fica em Davos, onde homens engravatados tentam convencer o planeta de que o futuro cabe em uma apresentação de PowerPoint. Há também quem aposte em Cannes, onde um Leão dourado pode transformar um comercial de trinta segundos em patrimônio cultural da humanidade. E, uma vez por ano, milhares de pessoas embarcam para Austin, no SXSW, em busca de alguém que lhes explique como será o amanhã.
Talvez todos estejam olhando para o endereço errado.
Porque o futuro pode muito bem estar escondido entre um talhão de cana-de-açúcar, um laboratório da ESALQ e uma abelha que insiste em trabalhar enquanto nós discutimos tendências.
A ESALQ nunca vendeu glamour. Nunca precisou. Enquanto o mercado aprendia a dizer “disrupção”, ela já pesquisava biotecnologia e genética vegetal. Enquanto o mundo se apaixonava por inteligência artificial, seus pesquisadores ensinavam plantas a resistirem a secas que ainda nem tinham nome. Enquanto executivos discutiam ESG em auditórios climatizados, agrônomos mediam a umidade do solo, observando silenciosamente que a natureza jamais participou de reuniões de conselho.
Existe uma elegância discreta, quase invisível na ciência agrícola. Ela não grita. Não viraliza. Não ganha milhares de curtidas. Ela impede que falte comida.
E isso talvez seja o maior ato de comunicação que exista. Porque toda safra é uma mensagem enviada pela Terra. E a Terra anda respondendo em letras maiúsculas.
O super El Niño não pediu licença. O aquecimento global também não. Eles chegaram como chegam as más notícias: primeiro parecendo exceção, depois estatística e, finalmente, rotina. Uma enchente aqui, uma seca ali, um incêndio acolá. De repente, os mapas meteorológicos passaram a parecer obras expressionistas. O clima deixou de ser previsível e passou a ser temperamental.
Foi então que Amy Webb, no SXSW, fez uma das afirmações mais desconcertantes dos últimos anos: morreu a era das previsões. Não porque faltam dados. Nunca tivemos tantos. Morreu porque o comportamento do mundo deixou de obedecer às próprias séries históricas. O futuro resolveu improvisar.
Passamos décadas acreditando que, com dados suficientes, poderíamos controlar tudo. Hoje temos satélites, sensores, algoritmos, inteligência artificial e modelos matemáticos capazes de calcular milhões de cenários por segundo.
Mesmo assim, continuamos olhando para o céu tentando adivinhar se vai chover.
Há uma humildade involuntária nisso. Enquanto isso, Cannes continua distribuindo Leões. E que bom que continue.
A publicidade celebra a criatividade. A agricultura celebra a sobrevivência. Mas talvez nunca tenham estado tão próximas.
Afinal, o mesmo consumidor que escolhe uma marca porque ela promete regenerar o planeta depende de um agricultor que torce para que a próxima onda de calor não destrua sua lavoura.
A mesma campanha premiada que emociona uma plateia em Cannes talvez exista porque, em algum lugar, uma cadeia produtiva inteira conseguiu continuar funcionando apesar do clima.
A criatividade não nasce apenas de um briefing. Ela também nasce da escassez. Da seca. Da praga. Da necessidade de produzir mais usando menos água. Da urgência de alimentar daqui a pouco nove bilhões de pessoas sem transformar o planeta em um estacionamento.
Talvez o verdadeiro festival de criatividade aconteça diariamente dentro de centros de pesquisa como a ESALQ.
Ali, não se disputa um Leão. Disputa-se o próximo verão.
Há uma ironia deliciosa nisso tudo.
Enquanto discutimos inteligência artificial generativa, quem continua gerando vida é uma semente.
Enquanto debatemos transformação digital, uma raiz silenciosamente transforma carbono em alimento.
Enquanto perseguimos tendências, uma abelha continua fazendo networking entre flores há milhões de anos, sem jamais ter participado de um painel sobre inovação.
Talvez ela seja a consultora mais experiente do planeta.
O problema é que insistimos em acreditar que estabilidade é um direito adquirido. Não é.
O planeta sempre foi um delicado acordo entre variáveis que fingiam cooperar. Bastou aumentarmos alguns décimos de grau na temperatura média para descobrir que vivíamos sobre uma mesa de vidro.
Tudo parece sólido. Até não parecer mais.
E talvez seja justamente essa a maior lição da ESALQ, de Cannes e do SXSW.
A primeira nos ensina que inovação só faz sentido quando produz vida.
O segundo nos lembra que boas histórias podem mudar comportamentos.
O terceiro acabou confessando que nem os futuristas conseguem mais prever o futuro.
É desconcertante. Também é libertador.
Porque, se ninguém sabe exatamente para onde vamos, talvez a inteligência esteja menos em prever e mais em cultivar.
Cultivar conhecimento. Cultivar ciência. Cultivar criatividade. Cultivar solo. Cultivar gente.
No fim das contas, a economia, a publicidade, a tecnologia, a agricultura e o clima talvez sejam apenas capítulos diferentes da mesma história.
Uma história escrita por bilhões de pequenas conexões invisíveis, tão frágeis quanto uma borboleta pousando sobre uma espiga de milho e, ao mesmo tempo, fortes o suficiente para sustentar civilizações inteiras.
A grande ironia do nosso século é esta: nunca fomos tão poderosos para alterar o planeta e nunca fomos tão impotentes para prever as consequências.
Talvez o futuro tenha desistido de ser previsto. Mas continua aceitando ser cultivado.
Aqui encerro a trilogia ESALQ, com o coração cheio de esperança e a mente agnóstica. E, se tem algo poderoso que aprendi com o professor José Belasque Junior, é que se a publicidade vive de narrativas, a agricultura vive de consequências.
Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, presidente da APP BRASIL e Conselheiro no IVC. https://www.linkedin.com/in/afonsoabelhao/