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A reputação do agro começa dentro do próprio setor

O agronegócio brasileiro ocupa posição de destaque na produção mundial de alimentos, fibras e energia. Ainda assim, quando o tema é reputação, parte do setor continua atribuindo sua imagem à forma como é retratado pela imprensa. Essa percepção merece reflexão.

As pesquisas realizadas ou apoiadas pela ABMRA mostram um cenário diferente. Enquanto sete em cada dez brasileiros têm uma visão positiva do agronegócio, de acordo com a “Pesquisa Percepções Sobre o Agro. O que Pensa o Brasileiro”, a 9ª Pesquisa ABMRA Hábitos do Produtor Rural revela que 65% dos produtores acreditam ser vistos de forma negativa pela população urbana. Existe, portanto, um descompasso entre a percepção da sociedade urbana e a percepção do próprio setor sobre sua imagem.

Esse resultado sugere que o principal desafio do agro não é convencer a sociedade de sua importância, mas estabelecer um diálogo permanente com ela. E essa responsabilidade pertence, antes de tudo, ao próprio setor.

Lideranças e executivos de marketing precisam estar atentos a essa diferença e compreender que jornalismo e publicidade cumprem papéis distintos.

O jornalismo tem como missão informar, apurar e contextualizar os fatos com independência, sem a obrigação de agradar a esta ou àquela empresa. A publicidade, por sua vez, tem outro papel: posicionar empresas, marcas e produtos por meio de anúncios e campanhas desenvolvidos por boas agências de publicidade; construir diferenciais; fortalecer marcas e dar visibilidade àquilo que oferecem ao mercado.

Confundir esses dois papéis ou esperar que o jornalismo se comporte como publicidade é um erro que lideranças e profissionais de marketing precisam evitar.

Nesse processo, é fundamental compreender o papel do jornalismo. Não cabe à imprensa construir ou proteger a reputação de qualquer atividade econômica. Sua função é informar com independência, investigar, contextualizar fatos e oferecer elementos para formar opinião. É justamente essa autonomia que sustenta sua credibilidade.

Naturalmente, acontecimentos de maior impacto recebem maior atenção pública. Faz parte da dinâmica jornalística dar visibilidade a fatos que exigem debate e prestação de contas. Esperar que a imprensa publique apenas notícias favoráveis ao agronegócio significaria desvirtuar sua missão.

A reputação de um setor é construída por suas práticas, pela forma como enfrenta desafios e pela qualidade do relacionamento que estabelece com a sociedade. Isso exige maturidade para reconhecer problemas, agir com transparência e demonstrar compromisso com sua solução.

O agronegócio brasileiro reúne conquistas expressivas em produtividade, inovação e sustentabilidade. Ao mesmo tempo, enfrenta desafios que precisam ser tratados com seriedade. Casos de desmatamento ilegal, trabalho análogo à escravidão ou outras irregularidades devem ser combatidos com rigor. Negá-los ou reagir de forma defensiva não fortalece a imagem do setor. O caminho mais consistente é deixar claro que esses episódios não representam a maioria dos produtores e que o próprio agro tem interesse em isolar quem atua à margem da lei.

Foi dessa compreensão que nasceu o Projeto Marca Agro do Brasil. A iniciativa não foi concebida como uma campanha publicitária, mas como uma estratégia permanente de construção de imagem e reputação, desenvolvida a partir de pesquisas e sustentada por três pilares: consistência, frequência e sequência.

O projeto atuará em três frentes. A primeira é a educação, aproximando jovens da realidade do campo e mostrando a origem dos alimentos e de inúmeros produtos presentes no cotidiano. A segunda é a comunicação, com uma linguagem acessível e baseada em evidências, capaz de conectar as pessoas à realidade do campo. A terceira é o relacionamento, ampliando o diálogo com jornalistas, pesquisadores, universidades e formadores de opinião para reduzir percepções baseadas no desconhecimento e ampliar o acesso à informação qualificada. Há muita informação disponível no site marcaagrodobrasil.com.br.

Essa estratégia passa, necessariamente, pelo fortalecimento da imprensa especializada. Nos últimos anos, as empresas concentraram investimentos em plataformas próprias e canais digitais, movimento importante, mas que não substitui o papel do jornalismo independente.

O jornalismo, presente na mídia segmentada e na grande imprensa, permite aprofundar temas complexos, divulgar pesquisas científicas, contextualizar debates e combater a desinformação, algo que dificilmente será feito apenas por algoritmos ou redes sociais.

Apoiar esse ecossistema de comunicação não significa buscar cobertura favorável. Significa reconhecer que informação de qualidade depende de veículos sólidos, independentes e capazes de produzir conteúdo técnico com credibilidade. Em um ambiente marcado pela velocidade das redes sociais, pela desinformação e pelo avanço da inteligência artificial, a confiança torna-se um ativo estratégico.

O agronegócio brasileiro tem todas as condições para fortalecer sua reputação. Produz conhecimento, inovação e resultados reconhecidos internacionalmente. O desafio está em transformar esses ativos em uma comunicação permanente, transparente e baseada em evidências.

O jornalismo continuará exercendo seu papel de informar com independência. Ao agronegócio cabe investir em diálogo, relacionamento e informação de qualidade, construindo uma reputação compatível com sua relevância para o Brasil e para o mundo.

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