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O processo criativo entre os ventos de Chronos e Kairós

No célebre livro Criatividade & Marketing, escrito por Duailibi & Simonsen e lançado em 2000, os autores apresentam o processo criativo como fruto de sete etapas que ocorrem de forma processual, desde o problema inicial até a verificação do êxito — ou do fracasso — de uma ideia.

O ponto que nos chama atenção nessa metodologia amplamente difundida reside no fato de que ela nos ensina que cada etapa tem um papel fundamental. Uma delas, por exemplo, nomeada de incubação, diz respeito à pausa necessária durante o percurso criativo. De acordo com os autores, ela se manifesta após a preparação, etapa caracterizada pela pesquisa sobre tudo aquilo que já foi produzido em torno do tema em questão. Com a mente saturada, torna-se fundamental promover uma “desligada” deliberada, a fim de permitir que as informações se organizem e criem uma hierarquia própria até que retomemos a resolução do problema. Essa é a função da incubação.

Trazendo a reflexão para os dias de hoje, cabe perguntar: como essas etapas se inserem em um cenário povoado por inteligências artificiais, agentes e prompts que, ao mesmo tempo que agilizam o processo criativo, parecem pasteurizar as ideias e reduzir seu caráter subjetivo?

Para refletir sobre essa situação, gostaríamos de trazer para esse ringue dois personagens da mitologia grega que podem nos auxiliar a compreender a dinâmica criativa na contemporaneidade. Do lado direito, com uma agenda rigorosa e inimigo da procrastinação, anunciamos Chronos. Para ele, a criatividade deveria ser medida a partir de um cronômetro, com tempo definido para começar e terminar. Sem tolerância a atrasos e desculpas esfarrapadas, Chronos é a precisão e a pontualidade em sua forma extrema e inegociável.

Do lado oposto da arena, temos Kairós, que vai chegando de mansinho, cumprimentando todos os espectadores, um a um. Para Kairós, uma tarefa não pode ser reduzida à mera medição do tempo. É preciso olhar para todos os lados, analisar cenários, propor hipóteses e testar teses. Ideia boa é aquela que precisa do tempo necessário para amadurecer. Cauteloso, Kairós valoriza o tempo vivido em cada atividade e tenta extrair dela aprendizados que fortaleçam sua experiência e sua autoria. Kairós não é simplesmente o tempo demorado, mas o tempo oportuno: aquele em que a ideia encontra maturidade, contexto e sentido para emergir.

É possível superar a dicotomia entre Chronos e Kairós para buscarmos uma parceria que concilie essas duas perspectivas na dimensão criativa? Acreditamos que sim. Seria muito tentador nos guiarmos apenas pelos ditames de Kairós, saboreando cada instante como se ele fosse único. Imagine só que delícia seria colocar provisoriamente os prazos embaixo do tapete para seguirmos o nosso próprio flow. Tentador, sem dúvida. No entanto, descartar Chronos pode abrir espaço para que a procrastinação entre em cena e para que não consigamos estabelecer prazos exequíveis para nossas tarefas. Um bom planejamento também gera direções possíveis de serem alcançadas.

Por outro lado, o predomínio de Chronos pode propiciar alguns riscos, como o uso indiscriminado das inteligências artificiais em substituição ao processo contemplativo e sensível, de natureza eminentemente humana. Ganha-se em velocidade e organização, mas onde se situa a autoria nesse ínterim, se ela é rechaçada ou terceirizada aos agentes tecnológicos?

A criatividade, para além da visão romantizada e equivocada que a apresenta como um dom destinado a poucos, é fruto da sensibilidade digna de Kairós, que sabe associar cada elemento de seu repertório em um exercício cuidadoso de bricolagem. Cada peça tem o seu valor. Kairós saboreia cada instante, mas precisa do auxílio de Chronos para manter o olhar atento aos compromissos e não se perder em devaneios desnecessários.

E quanto a nós, como podemos nos inspirar na contribuição desses dois mitos? Rechaçamos a dimensão de Chronos como aquele que se manifesta para nós apenas pela via da (o)pressão. Como representante do tempo medido, Chronos, com sua organização metódica, pode favorecer a otimização dos processos, inclusive a partir dos usos da IA, para que Kairós desfile com suas hipóteses e livres associações.

Cabe a nós articularmos Chronos e Kairós de forma intencionalmente equilibrada para que  trabalhem juntos e em sintonia com o que cada problema necessita. Quem ganha com isso é o pensamento criativo, que se fortalece quando consegue preservar, ao mesmo tempo, o novo, o processo e as marcas autorais.

Autores: Victor Reis Mazzei e André da Silva Mello

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