sábado, fevereiro 14, 2026
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Venezuela, a Pequena Veneza

Um tabuleiro chamado América Latina

O mercado nunca foi feito apenas por quem avança casas para frente. Ele também foi feito por quem enxerga o tabuleiro inteiro e percebe que, às vezes, a jogada decisiva está na lateral.

Quando os europeus cruzaram o Atlântico e batizaram a América de “Novo Mundo”, não estavam em busca de cultura exótica nem de clima tropical para foto de viagem. Eles estavam jogando xadrez. E encontraram peças valiosas: tomate, batata, milho, cacau, açúcar… e moveram tudo para o outro lado do tabuleiro. A pizza só virou italiana depois do tomate mexicano. A Europa só engordou porque adotou a batata andina. O Velho Mundo sobreviveu porque aprendeu rápido a explorar o que o Novo Mundo tinha de mais estratégico.

Toda tradição já foi um lance ousado.
E todo lance ousado já foi visto como loucura antes da vitória.

No século XVII, a Companhia das Índias Ocidentais fez uma leitura brilhante do jogo: açúcar não era sobremesa, era poder. O Brasil virou o centro do tabuleiro, o rei cercado por engenhos, portos e rotas comerciais. Pernambuco foi invadido, canhões foram posicionados, alianças foram feitas e desfeitas. Porque quem controlava o açúcar controlava o dinheiro. E quem controlava o dinheiro controlava o mundo. Era uma partida em que a doçura era só fachada, o gosto real era amargo.

O mercado nunca foi romântico.
Sempre foi estrategista.

E, como em toda guerra por território, houve o movimento mais cruel do jogo: o comércio de pessoas escravizadas. Por trezentos anos, corpos foram tratados como mercadoria, vidas viraram carga, e o Atlântico virou uma ponte de dor. O Brasil “cresceu”, “lucrou” e demorou demais para abandonar a peça mais vergonhosa da história. Foi o último país do mundo a abolir a escravidão, um xeque-mate moral que deveria ecoar mais alto até hoje.

Nem toda oportunidade é progresso.
Algumas são só vergonha bem embalada mesmo.

Agora o tabuleiro mudou, mas o jogo continua. Hoje, o agro, especialmente o universo FLV, olhou para Berlim como se fosse a casa central do mundo. A Fruit Logistica reuniu a elite global das frutas e verduras, e o Mercosul acompanhou com lupa, ainda mais com acordos sendo costurados com a Europa. Tecnologia, rastreabilidade, inovação, sustentabilidade.

Tudo faz sentido. Tudo é importante.
O mundo inteiro disputando o mesmo quadrado.

Mas, enquanto todo mundo olha para o norte, quase ninguém percebe a jogada silenciosa ao lado. Porque ali está a Venezuela. Uma peça que parecia fora do jogo, mas pode voltar ao tabuleiro. Um país que pode reabrir caminhos comerciais, demandar alimentos, logística, transporte, exportação e estrutura. Um mercado que não está no hype, mas está no mapa. E, no xadrez, o mapa vale mais do que o barulho da torcida.

E a ironia histórica é deliciosa: a Venezuela recebeu esse nome porque, em 1499, exploradores espanhóis viram as casas indígenas sobre palafitas no Lago de Maracaibo e acharam aquilo parecido com Veneza. Chamaram de “Pequena Veneza”. Venezuela. Um apelido europeu para um território que, séculos depois, pode virar uma nova fronteira latino-americana.

Mas nenhuma abertura faz sentido sem a jogada mais importante: o verdadeiro avanço venezuelano passa por garantir que o povo tenha voz, voto e poder real para decidir o futuro do próprio país. Porque abrir mercado é atrair investimentos, gerar empregos e impulsionar desenvolvimento. Só que não estamos falando apenas de consumidores em potencial, estamos falando de pessoas. E pessoas precisam ser livres para escolher desde o que colocam na mesa até quem vai conduzir o destino da nação.

A história já mostrou como o tabuleiro pune quem depende de uma peça só. A quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, derrubou a economia mundial e deixou o Brasil exposto como rei sem defesa: dependíamos do café. O consumo caiu, o preço desabou, os estoques encalharam. Getúlio Vargas respondeu com um lance desesperado: mandou queimar milhões de sacas de café para segurar o valor. Foi uma decisão dura, quase surreal, mas reveladora. O Brasil queimou café não por excesso de riqueza, mas por falta de opção. Quando o mundo parou de comprar, sobrou fumaça, dependência, despreparo e decisões tomadas no limite.

A história já repetiu esse jogo várias vezes.
O açúcar virou guerra.
O tomate virou Itália.
A batata virou Alemanha.
O cacau virou Suíça.
O café virou império.

E é sempre assim: alguém olha para onde ninguém está olhando e muda a partida.

O mercado gosta de ironia. Enquanto todos disputam o óbvio, o próximo grande movimento costuma nascer no canto do tabuleiro, quieto, discreto, esperando um jogador com visão.

O erro não é ir a Berlim.
O erro é voltar de lá achando que o mundo termina no centro.

Porque oportunidades não fazem barulho.
Elas só ficam ali.
Ao lado.
Esperando alguém enxergar o xeque-mate antes de todo mundo.

Afonso Abelhão é publicitário, sócio e CEO da agência BigBee e presidente da APP Brasil.

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