sábado, abril 11, 2026
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Quando o clima esquenta

Outro dia, um produtor rural olhou para o céu e fez o que sempre fez: tentou entender o clima.
Se vinha chuva, se vinha sol, se vinha aquela frente fria que chega sem avisar e muda tudo.

Mas, dessa vez, o céu não respondeu.

Ou melhor… respondeu de outro jeito.

Porque o clima anda estranho.

Não só o clima do tempo.

O clima do mundo.

De um lado, o planeta aquece.
Temperaturas sobem, extremos viram rotina, o imprevisível vira padrão.

Do outro, o clima entre países também esquenta.
Guerras, tensões, rotas ameaçadas.

E, no meio disso tudo, o agricultor, aquele que sempre dependeu do céu, agora depende do planeta inteiro.

Parece exagero, mas não é. Basta fechar o aplicativo de previsão do tempo, e abrir um mapa geopolítico.

Se o Estreito de Ormuz trava, o petróleo sobe.
Se o petróleo sobe, o diesel sobe.
Se o diesel sobe, o custo do agro sobe.

E o calor… aumenta.

Mas o verdadeiro incêndio não está no combustível.

Está no fertilizante.

O Brasil, potência agrícola, importa cerca de 85% do que precisa para plantar.

Ou seja: o campo brasileiro depende de navios que passam por regiões onde o clima também esquenta.

E aí surge aquele paradoxo que só o nosso tempo consegue produzir: a gente domina tecnologia, mas não domina dependência.

Porque enquanto isso o homem já foi à Lua, e quer voltar.

Quer construir base, explorar, produzir e quem sabe até plantar.

Olha que coisa. A gente começa a pensar em cultivo fora da Terra, enquanto aqui ainda depende de insumo que atravessa zona de guerra.

Ironicamente falta o chão e sobra o espaço.

Vivemos um tempo curioso.

Sobra tecnologia. Falta humanidade.

Sobra inteligência artificial. Falta a natural.

Sobra ciência para explorar outros planeta,
mas ainda falta saneamento básico em muitos lugares.

Sobra conexão. Falta direção.

No agro, isso fica ainda mais visível.

Conseguimos prever clima com dados.
Monitorar lavouras por satélite.
Automatizar decisões.

Mas ainda somos vulneráveis ao que acontece fora da nossa fronteira.

O agricultor, que antes olhava apenas para o céu, agora precisa olhar para:

  • guerras
  • rotas marítimas
  • decisões políticas
  • interesses globais

O clima deixou de ser só meteorológico.

Virou geopolítico. E a geopolítica hoje se faz através de posts.

E talvez o maior erro tenha sido acreditar que o mundo seria estável.

Que as cadeias seriam contínuas.
Que o fornecimento seria garantido.

Mas o mundo não é estável.

Nunca foi.

Agora só ficou mais evidente.

Existe uma ironia silenciosa nisso tudo.

Criamos o sistema mais eficiente da história para produzir alimentos.
E, ao mesmo tempo, o tornamos dependente de variáveis que não controlamos.

É como construir uma máquina perfeita, ligada a uma tomada instável.

Mas quando o clima esquenta algo acontece.

As estruturas se testam.

As certezas se quebram.

E as decisões se tornam inevitáveis.

O Brasil tem tudo.

Terra. Clima. Escala. Conhecimento.

O que falta não é capacidade. É decisão.

Decidir produzir fertilizante aqui.
Decidir investir em alternativas.
Decidir reduzir dependência.

Decidir parar de reagir e começar a antecipar.

Porque o futuro do agro não será definido só no campo.

Será definido:

no laboratório
na política
na estratégia
e na autonomia

E, no fim, fica uma pergunta simples, e incômoda: quando o clima esquenta quem está preparado?

Porque pode ser que a próxima grande safra do Brasil não venha da soja.

Nem do milho.

Nem da cana.

Mas de algo mais raro: equilíbrio.

Entre o que sabemos fazer e o que finalmente decidimos fazer.

Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, especialista em marketing agro e presidente da APP Brasil.

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