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NRF 2026: o varejo da relevância em tempo real

Nova York em janeiro tem um frio específico: aquele que te faz apertar o casaco e repensar decisões. O recado da NRF 2026 parece unanimidade: o próximo agora já está aqui.

E quando um evento desse tamanho insiste em “agora”, é porque o varejo cansou de slides sobre 2030.
O futuro virou rotina.
O futuro virou meta.
O futuro virou boleto.

O futuro virou presente.

O varejo não está mudando de roupa. Está mudando de pele.

A NRF é menos “tendências” e mais “manual de sobrevivência”. Porque o consumidor não está mais comparando lojas. Está comparando experiências. E experiência, hoje, é uma soma de coisas invisíveis: tempo, atrito, relevância, confiança e entrega.

Antes, varejo era presença.
Hoje, varejo é performance contínua.

A inteligência artificial apareceu em todo lugar, mas com um detalhe: não era IA de palco. Era IA de chão. IA que reduz atrito, acelera decisão e organiza caos.

A mensagem foi clara: não basta “ter IA”. É preciso operar com IA. Em atendimento, em previsão, em reposição, em preço, em jornada.

E aqui entra o primeiro paradoxo do evento:
quanto mais tecnologia, mais valioso fica o humano.
Porque quando tudo automatiza, o diferencial vira cuidado, clareza, serviço.

E como aplicar já?

  • IA no WhatsApp + transbordo humano (para casos críticos: troca, atraso, pagamento)
  • Copiloto de vendedor (argumentos, comparação, alternativa de produto/estoque)
  • Previsão de demanda por loja (menos ruptura, menos excesso, menos “apagão”)
  • IA para pricing tático (giro x margem x concorrência, sem virar liquidação permanente)

Os AI Agents e AI Commerce: a mudança radical

Até ontem, a IA era ferramenta.
Hoje, ela virou agente.

A NRF colocou holofote em AI Agents, sistemas que não apenas respondem, mas executam. Você dá o objetivo e o agente faz: compra, resolve, reembolsa, recomenda, repõe, agenda, notifica.

E aí vem o irmão mais disruptivo: AI Commerce.

Não é e-commerce com IA.
É comércio sem busca.

O cliente não navega. Ele delega:
“Quero um tênis confortável até R$ 300, entrega rápida, boa avaliação.”
E o agente resolve.

E isso vira um choque de realidade para o varejo:

  • antes você brigava por clique
  • agora você briga por ser escolhido pelo agente

O agente lê: estoque real, prazo real, preço total, reputação, política de troca.

A vitrine vira dado.
O dado vira decisão.
E a decisão… pode nem ser mais humana.

E como aplicar já?

  • Padronizar catálogo (atributos, imagens, variações) para ser “legível” por agentes
  • Garantir estoque confiável e SLA verdadeiro (prometer menos e cumprir mais)
  • Fortalecer reputação (avaliações, pós-venda, transparência)
  • Simplificar troca/devolução (o agente evita marcas “complicadas”)

E, se antes Retail Media era “onda”, agora é pilar. A lógica é simples: margens pressionadas pedem novas fontes de lucro, e o varejo virou canal.

A gôndola virou inventário de mídia.
A busca do e-commerce virou vitrine paga.
E o encarte virou plataforma.

E como aplicar já?

  • Começar com um pacote mínimo: banner + busca + destaque de categoria + mídia em loja
  • Vender por temas (volta às aulas, verão, saúde, churrasco) e não por “post”
  • Medir o básico que importa: ROAS + incremento de sell-out por loja/região

Omnichannel: deixou de ser estratégia e virou expectativa.

Na NRF, omnichannel apareceu com um tom quase impaciente: ou funciona sem atrito… ou não serve.

O consumidor não pensa em “canal”. Ele pensa em resolver.

A loja física, longe de morrer, foi tratada como trunfo: retirada, troca, experimentação, assistência e relacionamento.

E como aplicar já?

  • Clique & Retire com SLA real + comunicação proativa (WhatsApp salva)
  • Troca sem humilhação (processo simples vira fidelidade)
  • Balcão de resolução rápida para “pepinos” (reduz cancelamento e reclamação pública)

Loja física: menos templo, mais laboratório

A loja do futuro não é só bonita. É operável.

RFID, visão computacional, inventário mais preciso, prevenção de perdas, checkouts mais fluidos… tudo apareceu como resposta a uma dor antiga: o varejo perde dinheiro no invisível.

E como aplicar já?

  • Começar por categoria crítica (moda, calçados, FLV, alto giro) com RFID piloto
  • Ritual semanal de “gôndola perfeita” (foto + checklist + correção)
  • Painel de perdas e ruptura com ação, não só diagnóstico

A tendência que amarra todas as outras: execução contínua.

A NRF 2026 deixou uma mensagem que não cabe em gadget: o varejo vencedor é o que executa bem, todo dia.

Transformação deixou de ser projeto.
Virou método.

E como aplicar já?

  • Painel semanal com 5 KPIs por loja: ruptura, giro, margem, conversão, NPS
  • War room quinzenal: decidir 3 ações e cortar 10 distrações
  • Testar → medir → escalar (sem “piloto eterno”)

Universal Commerce Protocol: quando “comprar” vira linguagem

E como se a NRF 2026 já não tivesse colocado a IA no volante, o Google apareceu com uma ideia que parece simples, e por isso mesmo requer atenção: o Universal Commerce Protocol apresentado como uma espécie de “idioma comum” para o comércio. A promessa é reduzir atrito entre plataformas, agentes e varejistas, tornando ofertas, catálogo, preço, disponibilidade e condições mais “interpretáveis” por sistemas automatizados, como se o varejo finalmente ganhasse um padrão para conversar com a nova geração de compradores: os agentes de IA. Em tradução livre: menos fricção e mais compra fluida. Só que, quando comprar vira protocolo, a pergunta muda de patamar: o varejo continua sendo vitrine, ou passa a ser infraestrutura?

O estrategista volta da NRF com uma frase (e uma preocupação).

Quem vai ganhar não é quem tem mais tecnologia.
É quem tem mais relevância e disciplina de operação.

Porque o varejo de 2026 não quer parecer moderno. Ele quer ser confiável.

E aí vem a pergunta final e totalmente prática: Se a IA começa a decidir por nós, o varejo vai continuar vendendo para pessoas, ou vai passar a vender para algoritmos?

Afonso Abelhão é publicitário, sócio e CEO da agência BigBee, presidente da APP Brasil e conselheiro no IVC.

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