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MBA executivo não devolve contatos do crachá

Por Paulo Moreti

Bom dia! Deixa eu te contar uma coisa…

Existe um momento exato na travessia de todo executivo em que a ansiedade silenciosa tenta se disfarçar de prudência estratégica, espero que você não tenha passado por isso ou esteja passando.

Acontece por volta do quarto ou quinto mês após o desligamento. A euforia inicial das primeiras semanas de descanso já se dissipou, os onze cafés com consultores de busca terminaram invariavelmente na mesma promessa polida de “manter o seu nome no radar”, e o “bendito” celular, aquele aparelho pessoal que substituiu o corporativo devolvido na recepção, teima em não tocar.

É nesse ponto que surge o impulso quase reflexo: buscar abrigo naquilo que sempre conferiu legitimidade ao longo de toda a sua trajetória.

Você, após um dia inteiro de angústia e reflexões, abre o navegador à noite, após todos irem dormir e claro você está sem sono devido a preocupação, e começa a pesquisar programas de educação executiva de ponta. Um MBA internacional de R$ 120 mil, uma imersão de duas semanas em Boston ou mais uma certificação de específica com chancela tradicional e/ou internacional. A narrativa interna que você constrói para justificar o cheque é impecável: “Preciso me atualizar sobre novas dinâmicas globais, oxigenar minha rede de relacionamentos no mais alto nível e colocar mais uma sigla incontestável no meu currículo”.

Parece uma decisão racional de investimento, mas, na verdade, se retirarmos a camada de verniz corporativo, trata-se de uma fuga sutil.

Esse é o famoso engano onde a tentação de empilhar competência sobre competência aparece como tábua de salvação.

Quando um(a) profissional com 20 ou 25 anos de estrada executiva decide voltar para a sala de aula para enfrentar a perda de tração de mercado, ele está cometendo um erro clássico de diagnóstico: achar que o seu problema é falta de estofo técnico. E aqaui vale uma ressalta muito importante: NÃO ESTOU QUERENDO DIZER QUE CONHECIMENTO NÃO É IMPORTANTE! Pelo contrário é sim, precisamos do life long learning, mas isso é só um aparte do processo

Pense com frieza:

· Você operou plantas fabris com milhares de colaboradores.

· Sentou à mesa com sindicatos em momentos de greve iminente.

· Reestruturou centros de custos esmagados por oscilações cambiais severas.

· Bancou decisões solitárias em comitês executivos sob a vigilância cerrada de acionistas e agências regulatórias.

· Conduziu times em momentos críticos e os levou ao alcance dos objetivos propostos.

A pergunta que não cala é: Será que você precisa, genuinamente, de mais 400 horas de teoria sobre análise financeira ou liderança estratégica para provar que sabe gerir uma operação de grande porte?

A resposta honesta é não. Adicionar mais uma linha “em latim ou uma sigla anglo-saxônica” ao rodapé da sua apresentação é empilhar competência sobre competência, é tentar resolver um problema de sinalização e posicionamento com excesso de capacitação. O mercado não deixou de ligar para você porque duvida da sua capacidade analítica, ele parou de ligar porque, quando olha para a sua trajetória, só consegue enxergar o logotipo da empresa que você representava durante as últimas duas décadas.

E se não houver uma mudança. a conta vai chegar …

Considere o desfecho desse roteiro fictício aqui:

Dois anos se passam. As 10 parcelas daquele investimento educacional de R$ 120 mil foram debitadas pontualmente. Você viajou, fez apresentações impecáveis em grupos de trabalho, defendeu o projeto final e adicionou o certificado brilhante ao LinkedIn com aquele “belo post padrão com a foto do diploma e o texto: Quero compartilhar que acabei minha formação…”.

No dia seguinte à formatura, a realidade continua com a mesmíssima configuração de antes:

1. Os 400 contatos estratégicos que pertenciam ao ecossistema da sua antiga companhia continuam inacessíveis na sua agenda pessoal.

2. O grupo de ex-alunos do curso passa a ser mais uma comunidade de WhatsApp com dezenas de profissionais na mesma fila de espera, buscando as mesmas cadeiras de conselho ou vagas de C-Level que raramente aparecem em editais abertos.

3. Toda vez que você se senta com um novo interlocutor de negócios, a sua primeira frase ainda começa pelo nome do seu antigo empregador.

A nova credencial obtida não comprou autoridade autônoma, ela apenas comprou mais dois anos de adiamento do problema central: você ainda não aprendeu a existir no mercado sem o suporte de uma marca alheia.

Veja, enquanto esteve no comando corporativo, a mecânica da relação era clara: você entregava capacidade decisória, inteligência operacional e estabilidade institucional; a organização absorvia tudo isso e transformava em valor patrimonial para os acionistas. As viradas de turno que você coordenou, os riscos jurídicos que você evitou na canetada e a musculatura ética que

manteve a integridade do negócio em cenários de incerteza geraram valor tangível para o balanço do CNPJ, mas o que aconteceu com o Capital de Influência gerado por esses 2º tantos anos?

Eu respondo para você: Ele ficou anexado ao seu antigo crachá, ficou nos registros de auditoria, na sala de reuniões do 14º andar e na memória institucional de uma estrutura que já virou a página para o próximo trimestre e para aquele(a) profissional que está na sua cadeira agora.

O seu maior patrimônio profissional não são os softwares que você operou ou as metas específicas que bateu em um ano específico da sua trajetória naquela empresa X. O seu maior patrimônio são os seus ativos intangíveis:

· A sua forma particular de navegar a ambiguidade quando a diretoria se divide.

· A velocidade com que você diagnostica o gargalo operacional invisível de uma operação.

· Os princípios e critérios de julgamento que guiam suas escolhas quando o custo da decisão é impopular.

O problema é que ativos intangíveis não se vendem sozinhos. Se eles não forem extraídos, organizados e traduzidos com precisão cirúrgica, permanecem como memórias tácitas que só servem para conversas nostálgicas em almoços com ex-colegas.

Por isso é preciso sair da validação cosmética e passar para a governança do próprio nome. Romper com essa armadilha exige substituir o consumo de credenciais alheias por uma auditoria séria daquilo que você já construiu.

Você não precisa de mais aulas, precisa de um método de extração de valor com base em evidências, precisa:

1. Mapear com precisão cirúrgica o abismo entre o que você domina na prática e o que o mercado enxerga hoje quando digita o seu nome numa pesquisa.

2. Medir por meio de dados a densidade da sua autoridade percebida, avaliando o quanto do seu prestígio ainda está sequestrado pelo antigo cargo corporativo.

3. Sintetizar suas habilidades comprovadas, personalidade de comando e valores inegociáveis em um posicionamento articulável em uma única frase. Uma frase que não comece com “ex-diretor de”, mas que coloque você como a primeira referência incontestável quando aquele assunto for colocado na mesa.

A pergunta definitiva para quem passou duas ou três décadas no topo da gestão é simples:

Você vai continuar gastando tempo e capital para alugar a reputação com base em mais certificações acadêmicas, ou vai assumir o método necessário para governar o valor permanente do seu próprio nome?

Lembre-se, o crachá corporativo fica na portaria, a placa de homenagem vai para o armário, mas o que decide o seu próximo ciclo de relevância no mercado é a autoridade que continua em pé quando você entra sozinho na sala de reuniões.

Bora trabalhar essa marca pessoal?

Paulo Moreti | Blindagem estratégica de reputação para executivos | Personal Branding Advisor

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