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ESALQ: O lugar onde o futuro resolveu estudar agronomia

Parte 1 da trilogia – Das raízes do conhecimento aos frutos da inovação.

Em uma longa e agradável conversa com o professor José Belasque Júnior, da ESALQ, aprendi muito mais sobre agro, não sobre comunicação no agro, mas sobre todo o ecossistema interligado à produção, economia, distribuição de renda, clima, que deram base para mapear o futuro do nosso país, foi um MBA que vou compartilhar resumidamente em uma trilogia de artigos.

Existe uma pergunta que atravessa gerações: quem alimenta o futuro?

A resposta mais óbvia seria dizer que são os agricultores. E eles realmente são. Mas existe uma resposta menos visível: o futuro também é alimentado por professores, pesquisadores, empreendedores e sonhadores que passam a vida tentando responder perguntas que ainda nem foram feitas. É exatamente nesse ponto que entra a ESALQ.

Para muitos brasileiros, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz é uma referência acadêmica. Para quem conhece sua história, ela é algo ainda maior, um raro exemplo de instituição que conseguiu unir tradição e inovação sem perder a alma no caminho. E isso começou muito antes de se falar em startups, inteligência artificial ou agricultura digital.

Um sonho plantado por duas pessoas.

A história costuma guardar os holofotes para Luiz de Queiroz. Mas como acontece com quase todas as grandes obras humanas, existe uma personagem fundamental que muitas vezes permanece nos bastidores: Ermelinda, sua esposa.

Sem ela, talvez a história tivesse seguido outro rumo. E a ela a história precisa dar o devido crédito.

Juntos, ajudaram a transformar um ideal em uma das mais importantes instituições de ensino agrícola do planeta. Uma escola criada para pensar uma agricultura adaptada aos trópicos muito antes de o mundo entender a importância estratégica dessa missão.

Hoje, quando a agricultura tropical brasileira é estudada em diversos países, existe uma semente da ESALQ em cada uma dessas discussões.

Uma escola que formou muito mais do que agrônomos.

Ao longo de sua trajetória, a ESALQ não produziu apenas pesquisadores.

Produziu líderes.

Ministros da Agricultura, secretários estaduais, cientistas, executivos e profissionais que ajudaram a moldar o agronegócio brasileiro passaram por seus corredores.

Talvez isso aconteça porque uma universidade é muito mais do que um conjunto de salas de aula. Ela funciona como uma espécie de laboratório de futuros possíveis.

Alguns alunos aprendem a cultivar plantas.

Outros aprendem a cultivar ideias.

Os melhores conseguem fazer as duas coisas.

A inovação saiu do laboratório.

Durante muito tempo, o modelo clássico da ciência era relativamente simples.

O pesquisador descobria algo.

Publicava um artigo.

E torcia para que alguém, em algum lugar, encontrasse uma aplicação prática.

O mundo mudou.

Hoje, conhecimento parado em uma gaveta tem o mesmo valor de uma semente guardada para sempre em um saco.

Ela possui potencial.

Mas não produz frutos.

Foi justamente para encurtar essa distância entre pesquisa e mercado que nasceu a ESALQTEC.

Criada em 1994, teve entre seus pioneiros o professor João Lúcio de Azevedo e depois, dando sequência na direção José Roberto Postali Parra.

A proposta era ousada para a época era transformar ciência em negócio sem perder o rigor científico.

O resultado foi concreto.

Mais de vinte empresas incubadas seguiram seus caminhos e chegaram ao mercado, levando inovação para dentro das fazendas, das indústrias e da vida das pessoas.

Quando a universidade vira ecossistema.

Mas a história não para aí.

Em um mundo onde as grandes transformações acontecem por colaboração, a ESALQ decidiu dar mais um passo.

Nasceu a ideia do ESALQ Science Park, um parque tecnológico de ponta.

A proposta surgiu em 2018 e foi oficialmente aprovada em 2025.

Pode parecer apenas um novo conjunto de prédios.

Não é.

Na prática, trata-se de criar um ambiente onde pesquisadores, investidores, empreendedores e empresas convivam diariamente.

Uma espécie de “vale do silício do agro”.

Um lugar onde uma tese pode virar startup.

Onde uma startup pode virar empresa.

E onde uma empresa pode resolver problemas reais do campo.

O ESALQ Science Park nasce sustentado por cinco pilares que dizem muito sobre os desafios do século XXI:

  • Agricultura sustentável;
  • Biotecnologia e bioeconomia;
  • Energias renováveis;
  • Agricultura digital;
  • Saúde planetária.

A mensagem é clara.

O futuro da agricultura não será construído apenas por tratores mais modernos.

Será construído por dados, biologia, sustentabilidade, saúde e comunicação.

O paradoxo das máquinas

Toda revolução tecnológica traz uma pergunta incômoda.

Se as máquinas fazem mais trabalho, o que acontece com as pessoas?

A pergunta não é nova.

Ela apareceu na Revolução Industrial.

Voltou com os computadores.

E reaparece agora com a inteligência artificial e a automação agrícola.

O professor José Belasque Júnior propõe uma reflexão interessante: “Talvez o desafio não seja lutar contra a tecnologia. Talvez seja redesenhar o sistema produtivo. Em vez de expulsar trabalhadores do campo, seria possível criar polos intensivos de produção de frutas, legumes e verduras próximos aos centros consumidores.”

Atividades que ainda dependem fortemente do trabalho humano.

Com assistência técnica, capacitação e incentivo ao empreendedorismo rural, trabalhadores que antes atuavam em grandes monoculturas poderiam migrar para modelos mais diversificados de produção.

Não seria apenas uma mudança econômica.

Seria uma mudança social.

Porque existe uma diferença enorme entre trabalhar na terra e pertencer à terra.

O desaparecimento silencioso dos pequenos produtores.

Existe um dado que conta uma história inteira.

Na década de 1980, cerca de vinte mil propriedades produziam laranja somente no estado de São Paulo.

Hoje, restam menos de cinco mil.

Os números são frios.

Mas as histórias por trás deles são humanas.

Famílias que deixaram o campo.

Filhos que migraram para cidades maiores.

Pequenos produtores que não conseguiram sobreviver diante das exigências de escala, dos riscos climáticos e dos longos ciclos de retorno financeiro.

Muitos trocaram a incerteza da lavoura pela incerteza urbana.

Nem sempre encontraram uma vida melhor.

É um lembrete de que desenvolvimento não pode ser medido apenas em toneladas produzidas.

Também precisa ser medido em famílias preservadas, comunidades fortalecidas e oportunidades distribuídas.

Afinal, para que serve a agricultura?

A resposta econômica é fácil.

Produzir alimentos.

Gerar renda.

Movimentar exportações.

Mas existe uma resposta mais profunda.

A agricultura tem a capacidade de criar pertencimento.

Ela conecta pessoas ao território.

Mantém famílias próximas.

Transforma paisagens.

Constrói comunidades.

Em um mundo cada vez mais digital, talvez esse seja um dos seus valores mais importantes.

A agricultura não produz apenas comida.

Ela produz vínculos.

O futuro começa pelas raízes.

Ao ouvir a trajetória da ESALQ, fica evidente que sua maior contribuição nunca foi apenas ensinar a plantar.

Foi ensinar a pensar.

Pensar ciência.

Pensar inovação.

Pensar desenvolvimento.

Pensar pessoas.

Porque o verdadeiro progresso acontece quando uma descoberta científica encontra uma necessidade humana.

E poucas instituições conseguiram fazer essa ponte com tanta consistência quanto a ESALQ.

No próximo artigo desta trilogia, entro em um tema que já bate à porta de todos os produtores do planeta: as mudanças climáticas, a agricultura resiliente e a necessidade urgente de aprender a produzir em um mundo cada vez mais imprevisível.

Afinal, se a agricultura depende do clima, o futuro da humanidade depende da capacidade de compreender ambos.

Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, especialista em marketing agro, presidente da APP Brasil e conselheiro no IVC – Instituto Verificador de Comunicação.

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