Defensoria Pública lança campanha sobre economia do cuidado e destaca impacto na vida das mulheres
Invisível nas estatísticas econômicas, mas presente na rotina de milhões de mulheres, o trabalho de cuidado segue sustentando a vida cotidiana à custa de sobrecarga, perda de renda e adoecimento. É sobre esse desequilíbrio que a Defensoria Pública do Estado do Ceará (DPCE) traz para o centro do debate com a campanha “Elas sentem o peso”, que será lançada no dia 30 de março.
Essa não é uma discussão distante para a Defensoria Pública do Estado do Ceará. A instituição conhece de perto essa realidade a partir da rotina de atendimentos: são as mulheres as principais usuárias do sistema de justiça, trazendo diariamente relatos que evidenciam o peso do cuidado em suas trajetórias de vida.
Nos atendimentos, são frequentes os casos de mulheres que dedicaram anos ao trabalho doméstico e à criação dos filhos e que, após uma separação, precisam recomeçar sem independência econômica. Também são comuns situações em que, mesmo sob guarda compartilhada, o cuidado cotidiano permanece concentrado nas mães, além de histórias de mulheres que assumem sozinhas a responsabilidade por familiares idosos ou enfermos, acumulando múltiplas jornadas.
Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada mostram que as mulheres dedicam, em média, 10 horas a mais por semana aos afazeres domésticos do que os homens. Esse desequilíbrio tem efeitos concretos: limita o acesso ao mercado de trabalho, impacta a renda e contribui para o adoecimento. Atualmente, elas já representam mais de 60% dos afastamentos por questões de saúde mental no país, em um cenário marcado pela sobrecarga e pela desigualdade na divisão do cuidado.
“A economia do cuidado não é um conceito abstrato. Ela aparece, todos os dias, nas histórias que chegam à Defensoria. Quando a comunicação traz esse tema para o centro do debate, ela não apenas informa. Ela revela desigualdades que foram tratadas como naturais e ajuda a deslocar esse cuidado invisível para o campo dos direitos”, destaca a jornalista Bianca Felippsen, responsável pela Secretária de Comunicação da Instituição.
Com a iniciativa, a Defensoria Pública reafirma seu compromisso com a defesa dos direitos das mulheres, com o acesso à justiça e com a construção de uma sociedade mais justa, onde o cuidado deixe de ser invisível e passe a ser reconhecido como um elemento central para o desenvolvimento social.
Nesse contexto, a Defensoria Pública lançou a campanha institucional “Entrelaços – A Defensoria que cuida da gente”, com o objetivo de dar visibilidade à economia do cuidado e ampliar o debate sobre seus efeitos sociais, jurídicos e econômicos. As ações são voltadas tanto ao público interno da instituição quanto à sociedade civil, fortalecendo o compromisso institucional com uma atuação mais sensível às desigualdades que atravessam o cotidiano das mulheres.
Proposta e criada pela Morya Comunicação, a campanha traduz em linguagem sensível e contundente uma realidade vivida diariamente por milhões de mulheres. A ideia nasce de uma premissa simples e poderosa: antes de tudo funcionar, alguém cuidou. É esse cuidado com crianças, idosos, pessoas enfermas, com a casa e com a organização da vida cotidiana, que sustenta a reprodução da força de trabalho e o funcionamento da economia formal, embora siga, em grande parte, fora das contas oficiais e do reconhecimento social.
O diretor-presidente da Morya Comunicação, Claudio Carvalho, destaca que “ao longo de sua trajetória de 70 anos, a Morya sempre colocou sua criatividade, consistência, competência, qualidade e, sobretudo, o talento de nossa equipe a serviço de causas importantes para a sociedade. Participar desta campanha pro bono para a Defensoria Pública do Estado do Ceará é motivo de orgulho para todos nós, porque acreditamos no poder da comunicação para dar visibilidade a temas urgentes, sensibilizar a população e impulsionar debates que contribuem para uma sociedade mais justa e consciente”.
O filme, produzido pela Duozz Filmes, e áudio do filme e spot, produzido pela Balancê, traduzem em narrativa e sensibilidade a sobrecarga do cuidado não remunerado. Já a comunicação visual, executada pela Somma Comunicação Visual, reforça a força conceitual da campanha ao transformar em imagem o peso invisível que sustenta a rotina, a casa, a família e a sociedade. No material criativo, a campanha destaca que “mudar essa realidade é tarefa de todos”, propondo uma reflexão coletiva sobre corresponsabilidade, equidade e reconhecimento.
A linha gráfica se apropria de uma linguagem visual universal: a das esculturas clássicas que sustentam estruturas arquitetônicas. Ao trazer essa referência para o universo do cuidado não remunerado, a campanha constrói uma metáfora direta: mulheres que sustentam o funcionamento da casa, da família e da sociedade. Assim como nas esculturas, elas aparentam força e estabilidade. No entanto, ao contrário da pedra, são humanas e estão sob pressão constante. As rachaduras presentes nas peças visuais tornam visível o desgaste provocado pela sobrecarga, transformando uma sensação abstrata em algo concreto e quase palpável.
A proposta estética traduz o peso invisível do cuidado. A comunicação da campanha foi pensada para tornar visível o peso que tantas mulheres carregam em silêncio e conta com uma ampla rede de parceiros e veículos de comunicação que se uniram de forma pro bono à causa.
Durante o próximo mês, a instituição trará o tema para o centro da pauta, convidando a sociedade a refletir sobre a urgência de reconhecer o cuidado como trabalho, como responsabilidade compartilhada e como direito.
