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Back to the digital basics

Domingo, 11 da manhã. Chega na minha caixa de entrada a Caixa Postal, newsletter da Joyce Pascowitch. Sem paywall. Sem botão pedindo clique. Sem aquele desespero de quem precisa converter você em alguma coisa antes do fim do texto. Tem quase 20 minutos de leitura, e eu leio cada parágrafo.
Em 2026, com inteligência artificial gerando cem variações de qualquer conteúdo em segundos, alguém com mais de quarenta cinco anos de olho editorial decide fazer o contrário do que a indústria está fazendo. Escreve uma carta longa, com começo, meio e fim, e manda pelo correio mais antigo que a internet tem: o e-mail.
Funciona porque é bom.
Numa única edição, Joyce mistura uma reflexão sobre relacionamentos citando a New York Magazine, um raciocínio sobre otimismo apoiado em Daniel Kahneman, uma entrevista de bastidor com quem virou referência em mel brasileiro, e um bloco de sugestões de consumo patrocinado por shopping (Iguatemi). O publieditorial está ali, visível, mas costurado com cuidado suficiente para não quebrar o tom da carta. Isso é edição de verdade. Não é um emaranhado de links.
Tem outro detalhe que importa mais do que parece: ela não depende do algoritmo de ninguém. Quem assina escolheu assinar. A entrega chega direto, sem disputar espaço com gato fofo, sem ser escondida por uma plataforma que decide quem vê o quê. Newsletter é audiência própria. Lista que pertence a quem escreve, não a quem hospeda a rede.
O Kit (kit.com), ferramenta usada pela Caixa Postal, fatura hoje mais de 43 milhões de dólares por ano. Mas o dado mais revelador não é o faturamento. É o perfil de quem usa: quase 94% dos clientes do Kit têm entre um e dez funcionários. É a maior concentração de pequenos operadores já registrada numa categoria de tecnologia de marketing. Gente sozinha, ou em equipes minúsculas, monetizando atenção qualificada sem precisar de orçamento de mídia paga, sem depender de Meta, sem depender de Google.
A escala, no caso de newsletter, não vem de alcançar todo mundo. Vem do contrário: alcançar exatamente quem importa, com profundidade que a rede social nunca entrega.
O cenário mundial confirma que não é caso isolado. A Beehiiv já hospeda mais de 1,2 milhão de criadores ativos e passa de 900 milhões de assinantes somados. Os 5% melhores faturam, em média, 184 mil dólares por ano. No Brasil, a The News nasceu em 2020 e hoje reúne mais de dois milhões de assinantes, sete newsletters derivadas e equipe de mais de 30 pessoas.
Tem também a Eat Your Nuts, que se define como a primeira newsletter brasileira de curadoria do melhor da internet, e fora dela, com duas edições semanais. O próprio posicionamento da marca já diz muito: sem spam, com leveza, livre de algoritmo. Quem assina não está ali por acaso do feed. Está porque decidiu confiar a própria atenção a alguém que filtra antes de entregar.
E o motivo financeiro é simples: e-mail entrega entre 36 e 42 dólares de retorno para cada dólar investido. Nenhum outro canal de marketing digital chega perto disso.
O problema do mercado, hoje, não é falta de conteúdo. É excesso de conteúdo morno. Texto que cumpre calendário editorial. Parágrafo com sintaxe correta e nenhum ponto de vista atrás dela. A diferença aparece na primeira frase.
A newsletter virou o espaço onde formato simples e voz própria conseguem competir com qualquer orçamento de mídia. Os números mostram isso: mais retorno por dólar investido que qualquer outro canal, audiência que pertence a quem escreve, e receita que cresce junto com o tamanho da lista, não com o tamanho do orçamento de tráfego pago.
Voltar ao básico nunca foi sobre nostalgia. É sobre lembrar que craft, quando é dono da própria audiência, ainda é a vantagem que nenhuma big tech consegue comprar.
Fabio Madia é Consultor e Mentor de Negócios e Marketing e CMO As a Service. Também é o CEO da Academia Brasileira de Marketing.
Mais informações: www.fabiomadia.com.br
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