Todo começo de ano no campo tem algo de promessa.
Mesmo quando o céu não promete chuva.
Mesmo quando o custo sobe antes da colheita.
O calendário vira, mas a terra continua ali, exigente, silenciosa e nada romântica. O agro brasileiro entra em 2026 com a mesma contradição de sempre: potência global, rotina frágil. Produz muito. Ganha pouco. Exporta em dólar. Compra insumo em susto.
A tecnologia avança como trator novo: rápida, brilhante e cara. Drones sobrevoam lavouras, sensores medem o solo, algoritmos tentam prever o humor do clima, mas São Pedro continua offline. O produtor aprende a lidar com dados enquanto negocia com a incerteza. Modernidade não elimina o risco. Só o deixa mais sofisticado.
O Brasil segue alimentando o mundo, mas precisa reaprender a alimentar a própria lógica. Porque crescer não é apenas produzir mais. É produzir melhor, com menos improviso e mais consciência. Sustentabilidade deixou de ser discurso bonito para virar condição de mercado. Não é escolha. É exigência.
Os mercados internacionais abrem portas e fecham janelas. Um embargo aqui, uma auditoria ali, uma exigência nova acolá. O agro olha para fora, mas sente que precisa arrumar a casa por dentro. Infraestrutura ainda emperra. Crédito ainda assusta. Margem ainda aperta.
E o clima… ah, o clima. Ele deixou de ser assunto de previsão para virar personagem principal. Secas mais longas, chuvas mais concentradas, extremos mais frequentes. O produtor aprende que planejar virou um exercício de humildade. A terra ensina, mas cobra.
Mesmo assim, o agro segue. Porque sempre seguiu. Entre safras boas e ruins, entre recordes e prejuízos, entre discursos urbanos e realidades rurais. O campo é resiliência com CPF.
Em 2026, o agro brasileiro não será apenas sobre volume ou exportação. Será sobre equilíbrio. Entre tecnologia e tradição. Entre lucro e responsabilidade. Entre crescer rápido e durar mais.
No fim das contas, plantar continua sendo um ato de fé.
Mas colher, cada vez mais, é um ato de consciência.
E talvez seja isso que o agro esteja aprendendo:
não existe futuro fértil sem cuidado diário com o chão que se pisa.
Que 2026 venha com os seus desafios e safras recordes.
Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, presidente da APP Brasil e conselheiro no IVC.
