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2027, como diria Zuenir, o ano que não terminou

Por Fabio Madia

Escrevo hoje, no Dia das Bruxas, para constatar que 2027 tem tudo para ser um ano inesquecível. Em 1988, Zuenir Ventura lançou 1968: o ano que não terminou, livro sobre uma geração e sobre um ano que mudou costumes e comportamentos no Brasil e no mundo, e cujos efeitos seriam sentidos por décadas. Ao que tudo indica, 2027 pode ser um marco na humanidade, assim como foi 1968.

Será um ponto de interseção na vida de muitos empresários e, por consequência, de muitos colaboradores. Vamos começar o dia primeiro com muito mais dúvidas do que certezas e, como escreveu G. Michael Hopf no romance Those Who Remain (algo como Aqueles que permanecem), lançado em 2016: “Tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos bons, tempos bons criam homens fracos, e homens fracos criam tempos difíceis”.

Fato é que raramente o dono de uma empresa, sobretudo de uma pequena ou média, sabe com dois meses de antecedência o que vai mudar no ano seguinte. Para 2027, ele sabe. Pelo menos quatro frentes que mexem diretamente com custo, preço e caixa já têm data marcada ou projeção publicada.

A PRIMEIRA: A HORA TRABALHADA VAI FICAR MAIS CARA

A Emenda Constitucional 141, promulgada em 16 de outubro, estabelece a escala 5×2 e reduz a jornada sem redução de salário. Sim, há exceções, como as previstas para profissionais de nível superior com salários mais altos e para categorias que negociarem outro regime em acordo coletivo. Mas, em até 60 dias, ou seja, em meados de dezembro, o limite semanal cai de 44 para 42 horas, e cerca de um ano depois chega a 40 horas, com no máximo oito horas por dia.

A conta é direta: quem paga o mesmo salário por 40 horas no lugar de 44 passa a pagar 10% a mais por hora trabalhada. Numa indústria com turno fixo, o ajuste tende a ser resolvido com reorganização. No comércio e nos serviços que abrem seis ou sete dias por semana, a lista de decisões é bem maior, porque envolve refazer escalas, avaliar contratações, controlar horas extras e, em alguns casos, rever o horário de funcionamento.

Há quem vá enxergar ali também um argumento para atrair e reter gente, e as duas leituras cabem na mesma planilha, desde que alguém faça a conta antes de dezembro. A mesma emenda trouxe ainda novidades para os microempreendedores individuais, que terão o teto de faturamento elevado de R$ 80 mil para R$ 110 mil em 2027 e poderão contratar até dois funcionários.

A SEGUNDA: UM IMPOSTO NOVO NA NOTA FISCAL

Em 1º de janeiro, a CBS entra em vigor no lugar do PIS e da Cofins. No último dia 28, o Tribunal de Contas da União calculou a alíquota de referência em 11,3% para 2027, e o Senado tem até 22 de dezembro para fixá-la; se não o fizer, vale o número do TCU. Junto com a CBS começa a cobrança do Imposto Seletivo, e o IPI é zerado para a maior parte dos produtos.

As empresas do Simples Nacional tiveram até 30 de outubro para decidir se recolhem os novos tributos dentro do Simples ou pelo regime regular, opção que vale para o primeiro semestre de 2027. A escolha pesa sobretudo para quem vende para outras empresas, porque o regime regular permite ao cliente aproveitar o crédito integral do imposto, e muita gente precisou decidir antes de conhecer a alíquota.

A reforma mexe em preço, em margem, em contrato de longo prazo e na competitividade frente ao concorrente que fez uma escolha diferente. Por isso mesmo, ela precisa sair da mesa do contador e entrar na reunião em que se discute a estratégia da empresa.

A TERCEIRA: DINHEIRO CARO POR MAIS UM ANO

A Selic está em 13,75% desde setembro, depois de uma sequência de cortes pequenos. O Boletim Focus do Banco Central divulgado em 26 de outubro projeta para o fim de 2027 uma Selic de 11,75%, inflação de 4,34% e crescimento de 1,31% do PIB. Descontada a inflação, o juro real ficaria acima de 7% ao ano, patamar em que qualquer erro de capital de giro sai caro.

A fotografia do presente reforça o alerta. Segundo a Serasa Experian, o Brasil chegou a agosto com o recorde de 9,3 milhões de empresas inadimplentes, que somavam R$ 244,4 bilhões em dívidas. Dessas, 8,8 milhões são micro e pequenas empresas, e mais da metade dos CNPJs negativados é do setor de serviços. Para quem vende a prazo para outras empresas, o número também é um aviso sobre a saúde de quem está do outro lado da nota.

A QUARTA: A TECNOLOGIA ANDA MAIS RÁPIDO QUE O PLANO

A quarta frente costuma aparecer como oportunidade, e é. Uma pesquisa do Sebrae com o Meta Instituto de Pesquisa, feita com mais de 7 mil pequenos negócios, mostrou que 52% deles usaram inteligência artificial nas duas semanas anteriores à entrevista, contra 21% nos Estados Unidos, e que 60% pretendiam adotar ou ampliar o uso no semestre seguinte. Entre os que não planejam adotar, 38% apontaram falta de conhecimento sobre o que a tecnologia é capaz de fazer.

O desafio, a meu ver, está em adotar sem direção, usando a ferramenta porque o concorrente usa, sem decidir antes em quais processos ela entra e como o resultado vai ser medido. A IA amplia a capacidade de quem sabe o que quer dela. Numa empresa que vai ter menos horas por funcionário, tirar das pessoas as tarefas repetitivas entra direto na conta da produtividade.

O PROBLEMA É A SIMULTANEIDADE

Isoladamente, cada uma dessas mudanças é administrável. O que torna 2027 diferente é que elas chegam juntas e disputam o mesmo caixa. Uma empresa de serviços pode ter, no mesmo trimestre, a hora trabalhada mais cara, um tributo novo na nota, capital de giro a juro real acima de 7% e um concorrente operando com ferramentas que ela ainda não domina.

Quem reage a cada uma delas à medida que aparecem corre o risco de tomar decisões que se contradizem, como contratar para cobrir a nova escala no mesmo mês em que o imposto aperta a margem, ou tomar crédito caro para cobrir um buraco que poderia ter sido previsto em outubro.

O PAPEL DO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO

Seja sincero com você mesmo: quando foi a última vez que você fez um planejamento estratégico de verdade para o seu negócio? Não estou falando daquele bando de informações soltas, boas intenções e uma dose considerável de respostas pouco ou nada isentas em relação a você, seus concorrentes e ao seu negócio.

Quando foi a última vez que você perguntou, sem medo de ouvir a resposta, qual é a percepção que os seus clientes, ex-clientes, prospects e formadores de opinião têm de você, em comparação com os seus concorrentes? Vivemos num mundo em que a realidade é absolutamente irrelevante; o que importa é a PERCEPÇÃO. Ah, mas o meu produto é melhor do que o dele… Se o mercado não entende assim, ENTÃO NÃO É.

O planejamento estratégico é a principal arma que o empresário tem para superar os desafios, comuns ou específicos, que a vida corporativa apresenta. E 2027 está implorando para que você faça o seu, com todo amor e carinho.

O DÉCIMO SEGUNDO ANDAR ESTÁ CHEGANDO

Mario Quintana, meu poeta favorito, escreveu o POEMA DE ANO NOVO, que fala bastante sobre essa linda palavra, que inclusive está maravilhosamente expressa em nossa bandeira com a cor verde, o verde ESPERANÇA.

“Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— ó delicioso voo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…”

Vamos fazer o seu planejamento estratégico e entrar em 2027 sabendo exatamente o que fazer? Te convido para um café, e posso te contar como ajudei mais de 300 empresas e empresários a ter um ano melhor.

Fabio Madia é cofundador do Método 12 (www.metodo12.com.br ), consultor e mentor de negócios e CEO da Academia Brasileira de Marketing (www.abramark.com.br ).

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