Por Lucia Faria
Saber falar é bem diferente de saber se comunicar. Quanto a isso, acho que estamos de acordo. Só precisamos, agora, entender onde nos encaixamos nessa história.
A comunicação exige o entendimento do outro e a clareza do pensamento. Dominar um assunto não significa saber transmitir ideias sobre o tema com precisão e segurança. Tem gente que fala, fala e fala, sem conseguir chegar ao ponto central do próprio pensamento.
Uma comunicação eficiente envolve escuta, capacidade de síntese, domínio da mensagem, leitura do ambiente e habilidade para enfrentar perguntas difíceis. Por isso, o treinamento de porta-vozes é tão fundamental e, ao que parece, bastante negligenciado por muita gente que precisa responder pela empresa. Infelizmente, é visto por diversas lideranças como custo e não como investimento. Se quiser olhar como custo, tudo bem, então corra para colocar esse valor na devida coluna do orçamento dos próximos meses.
O que não pode é um executivo se expor e colocar em risco a própria imagem e a da instituição que representa. Afinal, quando um executivo se manifesta, não está falando apenas por si mesmo. Sua postura, suas palavras e até seus silêncios dizem muito sobre a marca que representa.
Já foi o tempo em que dar uma entrevista à imprensa era a maior preocupação de um porta-voz. As mídias sociais também exigem muita atenção. E a comunicação com o público interno, então? Os funcionários são os verdadeiros embaixadores das empresas, aqueles que levam adiante o pensamento das lideranças com as quais trabalham. Como exercer uma boa liderança sem conseguir se comunicar com o próprio time?
O palco, importante destacar, é um dos lugares mais desafiadores para quem não se preparou. Na hora H, a apresentação em PPT, elaborada dias antes com esmero, simplesmente não aparece no telão e o pânico se espalha do cérebro à ponta do pé. Aconteceu até mesmo com o príncipe Harry, que, segundo relatos, enfrentou problemas com o teleprompter durante uma apresentação na Clinton Global Initiative e se ausentou do palco por mais de 20 minutos. Ele falava sobre os perigos da Inteligência Artificial e o impacto das redes sociais em menores de idade. O episódio mostra como a dependência de um recurso tecnológico pode comprometer uma apresentação. E o que dizer de quem simplesmente lê os slides, como se a plateia não soubesse ler? Haja paciência.
Já Nizan Guanaes, por exemplo, envolve e encanta toda a plateia encadeando as palavras em seu discurso sem qualquer suporte tecnológico. Com certeza, mesmo com todo o dom nato de se comunicar, ele se preparou antes. Não chegou ali simplesmente despejando ideias. O improviso pode até parecer espontâneo, mas, quando funciona muito bem, geralmente tem muito preparo por trás. Até quem tem facilidade para se comunicar precisa conhecer a audiência e saber o que deseja transmitir.
E como lidar com a emoção no momento crucial do discurso? Escrevo este texto no dia seguinte à entrega do Prêmio Contribuição Profissional – Troféu Garra 2026, concedido pela Associação de Profissionais de Propaganda (APP Brasil), entidade da qual participo como diretora. Por ser um momento de emoção pura, estar naquele lugar sob os holofotes exige concentração e preparo. Alguns preferem levar uma colinha no celular, outros vão no improviso.
Homenageada da noite, a bióloga e pesquisadora Tatiana Sampaio subiu ao palco como cientista e foi aplaudida por uma plateia majoritariamente formada por profissionais de comunicação. Há pouco tempo, ela saiu do mundo fechado do laboratório para uma forte exposição midiática, após o desenvolvimento da polilaminina. Não tem sido fácil sua trajetória, com questionamentos constantes sobre seu estudo de um lado e a esperança desesperada de tanta gente do outro.
Naquele momento, diante de um público tão diferente do seu meio habitual, Tatiana demonstrou segurança e naturalidade. Contou que havia preparado várias coisas para dizer, só que, enquanto acompanhava os discursos que antecederam o seu, foi acumulando novas emoções e pensamentos. E soube incorporar tudo isso à sua fala, sem perder o rumo. Uma demonstração de que estar preparado não significa estar preso a um roteiro.
No caso dela, os desafios vão muito além de uma apresentação em público. É preciso resiliência para enfrentar questionamentos, identificar as armadilhas que podem surgir pelo caminho e manter a calma acima de tudo. E ainda transformar a linguagem científica em algo compreensível para o grande público, ávido por uma solução para sua dor.
Aliás, o tecniquês é um grande problema em várias profissões. Basta lembrar do médico que conversa com o paciente usando uma linguagem repleta de termos científicos, como se estivesse diante de um colega de profissão. Isso me faz lembrar de uma propaganda veiculada no século passado em que um mecânico enrolava o cliente dizendo que precisava trocar a “rebimboca da parafuseta”. Quem é mais maduro e gosta de propaganda certamente vai se lembrar.
Podemos assegurar que o treinamento de porta-vozes não transforma ninguém em um grande comunicador da noite para o dia. Tampouco elimina o nervosismo, a emoção ou os imprevistos. Mas ajuda a organizar o pensamento, reconhecer os riscos e desenvolver a segurança necessária para enfrentar situações que nem sempre seguem o roteiro previsto.
No fim das contas, saber falar pode até ser um talento natural. Saber se comunicar exige muito mais do que isso.
Lucia Faria é sócia-diretora da LF & Cia Comunicação Integrada e diretora da APP Brasil


