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The Slash Economy, por Fabio Madia

Há trinta anos, quando a grana apertava, a gente fazia um bico. O eletricista fazia um bico de pedreiro no fim de semana, a secretária traduzia documento à noite, o encanador cuidava do jardim de alguém no feriado. Ninguém publicava um reels no Instagram nem escrevia no LinkedIn sobre “as 5 coisas que aprendi fazendo bico”.

O bico evoluiu. Ficou sofisticado e ganhou um nome que soa a conquista: carreira slash. O designer que também é professor e podcaster. O consultor que escreve para revista e investe em startup. O desenvolvedor que programa, faz mentoria e tem participação em três negócios ao mesmo tempo.

A estrutura é exatamente a mesma de trinta anos atrás. O que mudou foi a intenção. Aquilo que era coisa de quem não conseguia se firmar em lugar nenhum hoje é aspiracional para muita gente. Virou estratégia, virou identidade, virou carreira. Para alguns, virou até símbolo de sucesso.

O que quase ninguém diferencia

A maioria das pessoas confunde slash com freelancer, ou com gig worker, como se fossem três nomes para a mesma coisa. Não são, e a diferença importa.

O freelancer vende projetos a partir de uma mesma competência. Pega cinco clientes, entrega o trabalho, recebe e passa para o próximo. É uma relação de transação (entrego X, recebo Y), e o que existe ali é execução, não a construção de uma identidade profissional.

O gig worker é a versão industrializada disso. Motorista de aplicativo, entregador, quem preenche uma janela de demanda numa plataforma, recebe por unidade e desaparece atrás do logo da empresa. Ele não está montando uma carreira; está atendendo uma fila.

O slash é outra coisa. É alguém com múltiplos pilares de identidade profissional, cada um com estrutura própria e reconhecimento próprio. O consultor que publica numa revista de circulação nacional não está fazendo um gig de escrita por cinquenta reais, está usando uma plataforma para acumular autoridade. O desenvolvedor que investe em startups não está fazendo freelance de código, está construindo um portfólio de sócios.

Ou seja, a diferença não é de quantidade de trabalhos. É de capital acumulado, simbólico, econômico e relacional, ao longo de anos de carreira. Slash funciona quando você já tem posição, já tem rede, já é uma referência em alguma coisa. Sem isso, o que existe é bico com nome novo.

Os números (e o que eles não dizem)

A gig economy brasileira cresceu entre 15% e 20% ao ano de 2020 a 2024. Cerca de 39% dos brasileiros já participaram de alguma forma de trabalho flexível. No mundo, 60% dos freelancers atendem múltiplos clientes ao mesmo tempo. Os números impressionam e, ao mesmo tempo, escondem o que está acontecendo de verdade.

Porque dentro desses 39% cabe o encanador que faz um bico de obra, o operário que vende coisa no OLX no fim de semana, a mãe solo que escreve por encomenda depois do expediente na corretora. Cabe quem precisa pagar o aluguel e cabe o profissional sênior que diversifica de propósito para acumular capital. A estatística coloca todo mundo no mesmo saco, e é justamente aí que ela deixa de explicar alguma coisa. O que separa uma ponta da outra não aparece em pesquisa nenhuma: é a intenção.

Por que isso aconteceu

Três movimentos convergiram para transformar o bico em slash, e nenhum deles foi planejado.

O primeiro é que a corporação deixou de oferecer segurança. Nos anos 80 e 90, uma carreira única em empresa grande significava aposentadoria, benefícios, estabilidade. Hoje ninguém acredita mais nisso. A empresa reduz, reestrutura, dispensa, e quem tem um único emprego sabe que está a uma reunião de distância de recomeçar.

O segundo é que a renda de uma fonte só ficou insuficiente. Um designer sênior em São Paulo ganha bem, mas não constrói patrimônio. Um consultor estratégico cobra um bom cachê, mas passa por vales perigosos entre um cliente e outro. Faz mais sentido ter várias pernas, mesmo que nenhuma delas, sozinha, sustente a vida inteira.

O terceiro é que a identidade profissional ficou líquida. Ninguém quer mais ser só “analista da empresa X” ou “gerente da Y”. Quer ser fundador, mentor, investidor, criador. Quer contar uma história sobre si mesmo que seja mais interessante do que a de quem trabalha para alguém.

Junte os três e a necessidade econômica que antes envergonhava vira oportunidade. E, diferente do que muita gente pensa, não é só narrativa. Para quem tem o que colocar em cada pilar, é uma forma melhor de trabalhar.

Eu sou slash há três anos, e sou muito feliz

Em 2023 decidi que queria ter várias frentes de negócio, por três motivos. O primeiro é que sou apaixonado pelo que faço e não queria ficar preso a um único formato de execução. O segundo é que vejo passar pela minha frente, todos os dias, uma infinidade de negócios incríveis dos quais quero participar de alguma forma, e, preso a um formato fixo, eu simplesmente não conseguiria. O terceiro é que assim eu tenho múltiplas fontes de renda, e não apenas uma.

Sou CEO da Academia Brasileira de Marketing, onde faço a gestão, a curadoria e a produção de conteúdo de uma entidade com 250 integrantes, um portal que reúne notícias sobre marketing, negócios e cultura e uma plataforma com cinco podcasts. Sou consultor e mentor de negócios e CMO as a Service para pequenas e médias empresas de todos os setores, B2B e B2C. E sou um gerador de oportunidades de negócios a partir do meu networking e da curadoria de inovações relevantes e parceiros estratégicos. Ou seja, sou um slasher há três anos.

Assim como eu, várias pessoas do meu relacionamento fazem o mesmo. E o que percebo nelas (e em mim) é que ninguém ali foi forçado a fazer múltiplos trabalhos. Escolhemos ter múltiplas frentes.

É bom contratar um slash?

Quando você contrata um slash, não está contratando alguém dividido. Está contratando alguém que construiu a própria estrutura de carreira, que não esperou a corporação oferecer segurança e foi lá montar a sua.

Isso muda a relação. Um slash não vai ficar na sua empresa por falta de opção, porque ele tem opção. Vai ficar enquanto o que você oferece fizer sentido no conjunto que ele construiu, e enquanto ele estiver lá, entrega com a qualidade de quem tem nome a proteger em mais de um lugar. A mediocridade, para um slash, custa caro demais, porque não fica contida em um único emprego: espalha por todos os pilares.

O que ele pede em troca não é lealdade eterna nem carga horária fechada. É clareza sobre o resultado esperado, autonomia para chegar lá e respeito pelo fato de que a sua empresa é uma parte importante da carreira dele, e não a carreira inteira.

Muita gente ainda vai olhar isso com desconfiança, porque foi educada num modelo em que quem servia a dois senhores não servia a nenhum. Só que esse modelo pressupunha uma corporação que cumpria a sua parte no acordo, e ela parou de cumprir há tempos. A carreira slash é a resposta de quem percebeu isso antes dos outros.

Não é para todo mundo. Exige pelo menos 2 dígitos de experiência profissional, rede de relacionamento ativa e engajada, exige saber lidar com as incertezas do dia a dia, como um bom empreendedor e principalmente, exige vontade e muito amor ao que se faz. Mas para quem já não cabe nos formatos antigos, para quem olha o organograma e não se vê em nenhuma caixinha, o slash pode ser uma opção.

Ficou curioso para saber como é ser um slasher? Vamos tomar um café!

Fabio Madia é consultor e mentor de negócios, CMO as a Service com ênfase em pequenas e médias empresas e CEO da Academia Brasileira de Marketing. Acesse: fabiomadia.com.br e saiba mais.

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