Por Afonso Abelhão
Há uma urgência nova no mundo: tudo precisa ser aprendido antes que seja atualizado.
Você acorda de manhã e já está atrasado. Não porque tenha perdido o ônibus, ou está chovendo e o trânsito não anda, mas porque, enquanto dormia, alguma inteligência artificial aprendeu uma coisa que você ainda não sabe, uma rede social mudou o algoritmo, um aplicativo ganhou uma função revolucionária e alguém publicou um vídeo de sete minutos explicando por que você está usando a tecnologia errada desde 2019.
Antes, ignorância era não saber.
Hoje, ignorância é não saber o que você deveria estar sabendo.
A informação, entretanto, não parece ter recebido o zap sobre nossa limitada capacidade cerebral. Ela chega em abundância, aos milhares, como convidados para uma festa que ninguém organizou. Notícias, podcasts, livros, newsletters, vídeos, cursos, memes, documentários, inteligência artificial, inteligência coletiva, inteligência emocional, desinteligência natural, e, em algum lugar, ainda há a nossa própria inteligência, tentando lembrar onde deixamos as chaves.
O curioso é que nunca tivemos tanta informação e tão pouco tempo para prestar atenção nela.
A atenção virou artigo de luxo.
Passamos a vida cercados de conteúdos que disputam nossa consciência como crianças disputando o controle remoto. “Olhe isto.” “Leia aquilo.” “Você viu?” “Precisa conhecer.” “Última chance.” “Tendência.” “Urgente.” “Imperdível.”
Até o imperdível ficou perdível demais.
Nesse cenário, atualizar-se deixou de ser uma atividade intelectual e passou a se parecer com higiene. Escovar os dentes, tomar banho, atualizar o sistema operacional. Se você ficar três dias sem acompanhar as novidades, alguém provavelmente inventará uma nova profissão, uma nova plataforma ou uma nova maneira de explicar que você está fazendo tudo errado.
Mas há um problema ainda maior: não basta acompanhar a tecnologia. É preciso ampliar o repertório.
Porque a máquina sabe calcular, mas não sabe, sozinha, por que uma lembrança de infância pode doer cinquenta anos depois. Ela pode produzir um poema em segundos, mas não viveu a adolescência que torna um poema necessário. Pode resumir Dostoiévski, mas não teve insônia. Pode explicar a Mona Lisa, mas não ficou parado diante dela tentando descobrir por que um sorriso pode parecer uma pergunta.
Por isso, talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja aprender mais. Seja continuar sendo alguém enquanto aprendemos mais.
É preciso saber o que acontece no mundo e, ao mesmo tempo, preservar algum espaço para aquilo que não acontece em lugar nenhum: a contemplação.
Ler um romance inteiro, por exemplo, tornou-se quase um ato de resistência. É uma experiência radicalmente improdutiva. Você passa horas acompanhando pessoas inventadas que não vão pagar seu aluguel, melhorar seu currículo nem aumentar sua produtividade.
E, justamente por isso, talvez seja tão importante.
A cultura nos oferece uma espécie de tecnologia para ampliar a mente: imaginar que podemos ser outra pessoa. Conhecer outras épocas, outras sociedades, outras sensibilidades, fazer outras sinápses. Descobrir que nossas certezas, tão sólidas, talvez sejam apenas hábitos com boa autoestima.
Enquanto a tecnologia acelera o presente, a cultura nos empresta passado e futuro.
O problema é fazer tudo isso agora.
Precisamos aprender a usar inteligência artificial, compreender as mudanças no trabalho e no clima, acompanhar a ciência, entender o mundo, ler literatura, ouvir música, assistir a filmes, conhecer outras culturas, manter relações humanas, cuidar do corpo, descansar, pensar, produzir, criar e, se possível, responder às mensagens antes que alguém mande três pontos de interrogação. Tudo isso, evidentemente, antes do almoço.
Talvez este seja o grande paradoxo contemporâneo: temos acesso a praticamente tudo, menos à capacidade de absorver tudo.
A solução não pode ser correr mais.
Talvez seja escolher melhor.
A atenção é uma forma de dizer “isto importa”. Cada vez que prestamos atenção a alguma coisa, estamos, silenciosamente, deixando outras coisas de lado. E isso exige coragem. Porque, num mundo em que tudo parece importante, escolher é quase uma pequena heresia.
É preciso aceitar que não veremos todos os filmes, leremos todos os livros, entenderemos todas as tecnologias, conheceremos todas as músicas nem acompanharemos todas as tendências.
Algumas coisas passarão.
E tudo bem.
Porque há uma diferença entre estar atualizado e estar vivo.
Estar atualizado significa saber o que acabou de acontecer.
Estar vivo significa também perceber o que está acontecendo dentro de você enquanto acontece o resto.
Talvez seja essa a competência mais rara do século: saber quando abrir uma aba e quando fechá-la. Quando aprender uma ferramenta nova e quando simplesmente conversar. Quando consultar a inteligência artificial e quando confiar na própria experiência. Quando buscar informação e quando proteger a atenção.
No fundo, o futuro não será de quem souber mais. Será de quem conseguir decidir a que vale a pena prestar atenção.
Por isso, leia este texto antes que ele perca a validade.
Não porque ele vá desaparecer.
Mas porque, daqui a cinco minutos, provavelmente haverá outro.
Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, especialista em marketing agro, presidente da APP Brasil e conselheiro no IVC e no CONAR.


