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A cada ano falamos 338 palavras a menos por dia

Esse é o número, e vale a pena ler devagar: não é um total anual, é a velocidade da queda. Matthias Mehl, psicólogo da Universidade do Arizona, tinha em 2007 uma estimativa de 15.900 palavras faladas por dia. Foi o estudo que, de quebra, derrubou o mito de que mulher fala mais que homem. Quando a colega Valeria Pfeifer refez a conta com 2.200 pessoas, em 22 estudos rodados entre 2005 e 2019, a média diária tinha caído para 12.700. Mehl disse que só podia ser erro de conta. Não era. E o formato da queda é linear: a cada ano que passa, a média de palavras faladas por dia diminui 338.

O que torna esse dado sério, e não só mais uma manchete de “a tecnologia está nos calando”, é como ele foi coletado. Nenhum daqueles 22 estudos foi desenhado pra medir conversa. Eram pesquisas sobre superar câncer de mama, sobre ajuste emocional pós-divórcio, sobre efeito da meditação. Ninguém sabia que a contagem de palavras seria revisitada anos depois. Isso é o oposto de pesquisa de opinião: é comportamento gravado sem que a pessoa soubesse que estava sendo medida. Dado desse tipo não mente pra agradar pesquisador.

O que está desaparecendo, segundo o próprio Mehl, é a conversa incidental. Perguntar pro caixa como funciona o cartão. Pedir informação pra um estranho na rua. Bater papo com vizinho. Self-checkout, GPS, totem de pedido: cada um desses “ganhos de eficiência” apagou uma dessas trocas. Ninguém projetou essas ferramentas pra matar conversa. Mataram como efeito colateral de resolver outro problema.

Aqui está o que passa batido: essas trocas incidentais nunca foram só ruído social. Eram onde se testava confiança em doses pequenas, repetidas, de baixo risco. Toda empresa que automatizou esse tipo de contato (e quase todas automatizaram) ganhou eficiência e perdeu, sem perceber, um mecanismo silencioso de construção de relação. Isso não é motivo pra desfazer self-checkout. É motivo pra parar de tratar como irrelevante o pouco de conversa que ainda sobrou nesses pontos de contato. Ela ficou rara. Coisa rara tem mais valor.

Tem um segundo dado, dentro do mesmo estudo, que pesa mais que o primeiro: a velocidade da queda não é igual entre gerações. Em adultos com mais de 25 anos, a média diária de palavras faladas cai 314 a cada ano. Em menores de 25, cai 452 a cada ano, quase 44% mais rápido. A geração que vai decidir a maior parte do consumo pelos próximos vinte anos está perdendo fluência verbal num ritmo bem mais acelerado que a geração anterior. E a maioria das empresas continua apostando em call de vendas, reunião comercial, ligação de cobrança como se esse público tivesse o mesmo repertório de fala de sempre. Não tem. Vai ter cada vez menos.

Isso não significa que esse jovem quer se conectar menos. O próprio Mehl faz a ressalva importante: o volume total de comunicação, somando texto e mensagem, talvez não tenha caído. Pode até ter subido. Só que isso é uma pergunta diferente de saber se estamos socialmente inteiros. Trocar fala por texto não é substituição neutra. É trocar um canal de comunicação eficaz (tom, hesitação, tempo de resposta, o toque emocional que a voz carrega) por um canal que exige menos, entrega menos e gera mais ruído de interpretação.

Dado que a fala virou o canal mais raro e mais caro de confiança, a pergunta muda de lugar. Deixa de ser quantas ligações fazer, quantas reuniões marcar, quantos calls emplacar. Passa a ser em qual desses poucos momentos falados ainda compensa investir de verdade, porque cada vez sobra menos deles, dentro da empresa e do lado do cliente.

Não é sobre fazer mais. É sobre ter mais tempo de qualidade. É o que já digo há anos: “nem tudo o que viraliza é ouro” e “Na pressa da quantidade, perde-se aquilo que realmente gera resultado; a qualidade”. É como disse Peter Drucker: “A coisa mais importante na comunicação é ouvir o que não foi dito.”

Vamos tomar um café e colocar o papo em dia? Eu topo.

Fabio Madia é Consultor e Mentor de Negócios, CMO as a Service com ênfase em PMEs, empresários e profissionais autônomos e CEO da Academia Brasileira de Marketing. fabiomadia.com.br

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