Maturidade da gestão além do feeling
No ambiente das agências de propaganda, o feeling que surge a partir da bagagem cultural e do repertório são ativos inquestionáveis. São eles que permitem o salto criativo, a ideia disruptiva e a conexão emocional e genuína com o público alvo das marcas.
No entanto, quando deslocamos o olhar da entrega puramente criativa para a engrenagem da gestão do negócio, a dinâmica precisa de um tipo de combustível diferente. A intuição, quando aplicada à gestão sem o devido lastro, torna-se o caminho mais curto e perigoso para a ineficiência.
Como dita a máxima histórica da administração: “quem não mede, não gerencia”. E diante de um cenário contemporâneo em que a barra dos desafios empresariais vem se elevando a cada ano, com margens mais espremidas, clientes mais exigentes e profissionais escolhendo onde trabalhar, não basta apenas medir; é preciso qualificar o dado. Quem não transforma números brutos em informação estratégica e acionável, acaba decidindo no escuro, guiado apenas por suposições.
Ainda há líderes que entendem que uma gestão baseada em dados se limita à esfera financeira, achando que o acompanhamento de alguns KPIs de receita, despesas e lucro os coloca em um patamar de gestão eficiente. Cuidado com essa armadilha. Embora vitais, esses dados são retrospectivos: eles contam a história do que já aconteceu. A verdadeira gestão data-driven, aquela que transforma a realidade da agência, atua nos dados ao longo dos processos. Ela se faz presente do início ao fim do ciclo operacional, tornando possível medir se o esforço do time está sendo drenado por refações invisíveis e evitáveis, ou se há alguma falha sistêmica de processo reduzindo silenciosamente a eficiência operacional antes mesmo de um projeto ir para a rua.
E, naturalmente, não dá para falar em eficiência operacional sem falarmos em pessoas. Afinal, agências se destacam em razão dos talentos que compõem seu time. Daí a urgência em estruturar mecanismos de People Analytics & Cultura. Ter dados nessa frente é o que permite uma visão clara da evolução e do desenvolvimento profissional das pessoas, além do pleno entendimento do clima interno através de métricas como o eNPS. Esses indicadores criam o poder da antecipação: eles preveem riscos de sobrecarga, sinalizam tendências de turnover e diagnosticam insatisfações que, sem sombra de dúvida, irão impactar nos KPIs financeiros da agência logo adiante.
Não menos importante, é possível e absolutamente necessário medir a satisfação dos clientes a partir de entregáveis claros. Acompanhar o nível de serviço transforma a percepção subjetiva de que “o cliente parece feliz” em argumentos concretos e inabaláveis para a retenção de contas e a geração de novos negócios.
A Percepção como Faísca, o Dado como Validação
Valorizar a experiência acumulada das lideranças é fundamental. A percepção de um gestor experiente funciona sempre como uma excelente bússola para desbravar novos caminhos. Contudo, em uma estrutura que se propõe a ser escalável e altamente profissional, essa mesma percepção deve ser tratada como uma hipótese. O dado não vem para anular o brilhantismo ou o talento do líder, mas sim para validá-lo. Ele oferece a camada de segurança necessária para que a agência invista seu tempo, sua energia e seus recursos financeiros onde o retorno é mais provável e sustentável.
Engajamento: Unidade em torno do Objetivo
Talvez o maior e mais transformador benefício de uma cultura de gestão orientada por dados seja a pacificação das decisões corporativas. Em mesas de reunião onde impera apenas a subjetividade, as discussões frequentemente derivam para disputas de hierarquia ou choques de ego. Porém, quando o dado qualificado é colocado no centro da mesa, a direção da empresa torna-se verdadeiramente conjunta. O time engaja com muito mais força e propósito quando compreende a lógica objetiva e inquestionável por trás de uma mudança de rota operacional.
Por isso, é preciso desmistificar a ideia de que a medição e análise de dados afasta a humanidade do negócio. Uma gestão baseada em evidências não torna a agência rígida, burocrática ou fria; pelo contrário, ela a torna infinitamente mais justa, previsível e sustentável a longo prazo. Ter o dado qualificado em mãos é o que confere ao gestor a tranquilidade e a autoridade para dizer “não” àquilo que consome margem e “sim” àquilo que constrói o futuro da organização.
Na origem da estratégia, a inteligência operacional. No centro da decisão, o dado.
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Daniel Queiroz é CTO – Chief Transformation Officer – na Ampla Comunicação
