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A Bolsa das Redes Sociais

Outro dia imaginei que, se Warren Buffett tivesse um perfil no Instagram, provavelmente postaria muito pouco. Talvez uma foto de um hambúrguer, outra da Coca-Cola e um texto longo explicando por que prefere esperar vinte anos em vez de vinte minutos. Não teria música trending, nem transição coreografada. E certamente não participaria do “desafio do momento”.

Enquanto outras crianças colecionavam figurinhas, Buffett colecionava pistas sobre como o dinheiro se move. Entre essas pistas, ainda criança, ele observava a quantidade de tampinhas de refrigerante no chão: quanto mais tampinhas encontrava, mais aquele refrigerante era vendido. Décadas depois, Buffett se tornaria um dos maiores investidores da Coca-Cola, empresa que hoje é uma das participações mais famosas da Berkshire Hathaway.

Nas redes sociais existe uma espécie de bolsa de valores invisível, onde as marcas compram e vendem atenção o tempo todo. E nela também existem dois tipos de estrategistas bem conhecidos: os traders de trend e os fundamentalistas de marca.

Os dois querem crescer.
Só não acreditam na mesma estratégia.

Imagine uma marca de fast-food às oito da manhã. O social media chega com o café na mão e o radar ligado.

“Gente, a trend do momento é dançar com um copo na cabeça!”

Dez minutos depois, o copo já virou milkshake, o gerente virou figurante e o vídeo está no ar.

Às vezes funciona.
O alcance explode.
Os comentários aparecem.
O algoritmo sorri.

Mas duas semanas depois ninguém lembra daquele vídeo.
Nem da dança.
Nem do milkshake.

Trend é barulho.
Memória é outra coisa.

Agora imagine outra marca.

Ela vê a mesma trend passando pelo feed. A equipe observa em silêncio.

Alguém pergunta:

“Isso tem a ver com quem somos?”

Outro responde:

“Não muito.”

Então eles simplesmente… não fazem nada.

No dia seguinte publicam um conteúdo sobre aquilo que sempre defenderam: qualidade, produto, história, propósito.

Nada viral.
Nada explosivo.

Mas curioso: seis meses depois as pessoas ainda associam aquela marca ao que ela representa.

Porque consistência é um tipo silencioso de viralização.

Nas redes sociais acontece algo muito parecido com o mercado financeiro.

Quem faz day trade vive de adrenalina.
Compra hoje.
Vende amanhã.
Ganha rápido.

Ou perde rápido também.

Quem investe como Buffett pensa diferente.

Ele olha fundamentos.
Marca.
Reputação.

Compra hoje…
e espera anos.

As redes sociais adoram velocidade.

Mas as marcas vivem de tempo.

O algoritmo ama novidade.
As pessoas amam significado.

Uma trend pode gerar milhões de visualizações.
Mas poucas constroem identidade.

Um conteúdo consistente pode ter menos alcance imediato.
Mas constrói algo mais raro: confiança.

Isso não significa que trend é errado.

Traders também ganham dinheiro.

E algumas marcas são excelentes nisso. São rápidas, irreverentes, divertidas. Vivem do timing.

Mas existe um risco: quando a trend acaba, o palco também desaparece.

Já as marcas fundamentalistas parecem quase… monótonas.

Elas não entram em todas as conversas.
Não dançam em todos os vídeos.
Não reagem a cada meme.

Mas lentamente constroem algo que algoritmo nenhum consegue fabricar: identidade.

Talvez o segredo esteja no equilíbrio.

Porque até Warren Buffett sabe que o mercado muda.
E até os traders sabem que fundamentos importam.

A diferença é simples.

Alguns correm atrás da próxima onda.
Outros constroem o barco.

E, no fim, olhando essa bolsa invisível das redes sociais, fica uma pergunta:

Sua marca está fazendo day trade de atenção… ou investimento de longo prazo em significado?

Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee e presidente da APP Brasil.

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