sábado, fevereiro 28, 2026
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Rio de lágrimas

Transparente é o discurso. Turva é a água.

Dizem que os rios agora vão ter CEP, CNPJ e projeção de EBITDA.
Há planilhas que medem a correnteza em retorno anual e relatórios que traduzem o barulho da água por IA. O rio, que antes era verbo, correr, inundar, nutrir, virou substantivo contábil.

Chamam de concessão, modernização, infraestrutura. A palavra “vida” aparece lá no slide 3, mas só como metáfora.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, data centers piscam como constelações artificiais. São catedrais da inteligência: máquinas que aprendem, calculam, respondem. Para pensar melhor que nós, precisam beber. Bebem milhões de litros para resfriar o calor das ideias que não sentem. A água sobe pelos canos, vira vapor, evapora em silêncio. Inteligência líquida para uma mente sem sede.

Na África, em vales onde a terra já era frágil, lagos minguaram. Não foi só o clima. Foi a lógica. Grandes projetos prometeram progresso: plantações irrigadas para exportação, mineração de criptomoedas que brilha longe dali, usinas que iluminam cidades que não conhecem o nome do rio. A água foi desviada com a precisão de um engenheiro e a indiferença de um algoritmo.

Restou o pó. E crianças que aprenderam cedo a palavra “escassez” antes de aprenderem “futuro”.

A água é memória.

Ela já foi nuvem no céu da Amazônia, suor na testa de um agricultor, líquido envenenado nas veias das cidades. A água é o único elemento que sabe estar em todos os estados sem perder a essência. Sólida, líquida, vapor, ela muda de forma, não de propósito: sustentar a vida.

Nós, ao contrário, mudamos de propósito e perdemos a forma.

Privatizam rios como quem cerca um horizonte. Concedem hidrovias como se a correnteza fosse apenas um corredor logístico. Dão nomes técnicos àquilo que sempre tem nome simples: água.

E quando a inteligência artificial pede mais refrigeração, quando a mineração de criptomoedas exige mais captação, quando o agronegócio precisa de mais irrigação, alguém sempre diz que é necessário.
Necessário para crescer.
Necessário para competir.
Necessário para não ficar para trás.

Mas atrás de quê?

O paradoxo é claro: criamos máquinas para prever o futuro enquanto drenamos a própria condição que o torna possível. Queremos algoritmos capazes de resolver a fome, mas secamos os rios que irrigam o alimento. Sonhamos com cidades inteligentes, mas esquecemos que a primeira inteligência do planeta foi uma molécula de H₂O encontrando outra e formando corrente.

A água não grita. Ela recua.
E quando recua, deixa rachaduras que não são apenas no solo.

Cada rio explorado é uma veia comprimida. Cada nascente poluída é uma ideia envenenada. Cada lago transformado em ativo financeiro é um lembrete de que confundimos valor com preço.

Há quem diga que o mundo sempre explorou a água. É verdade. Civilizações nasceram às margens dos rios e também os dominaram. Mas havia uma diferença: sabiam que dependiam deles. Hoje, acreditamos que dependemos de servidores.

A água não precisa de Wi-Fi.
Nós precisamos dela para viver.

Talvez o problema não seja privatizar, conceder ou inovar. Talvez o problema seja esquecer que, antes de qualquer modelo de negócio, existe um ciclo: evaporação, condensação, chuva. Um ciclo que não responde a acionistas, mas à gravidade e ao tempo.

A água é o único contrato que a Terra assinou conosco sem pedir nada em troca. Só pede equilíbrio.
Só pede respeito.
Só pede que a deixemos correr.

E no fim, quando todos os relatórios forem arquivados, quando os data centers forem atualizados, quando os projetos forem relicitados, haverá ainda uma pergunta simples, quase pueril:

Quem tem sede?

Se a resposta for “todos”, então talvez esteja na hora de lembrar que a água não é commodity, nem refrigeração, nem corredor de exportação.
É condição.

Sem ela, não há inteligência.
Não há mercado.
Não há progresso.
Não há vida.

Só silêncio seco onde antes havia corrente.

E ao agro, que mede produtividade por hectare e exportação por tonelada, fica um lembrete simples e inquietante: sem água não há safra, não há lucro, não há agro, há apenas poeira onde antes havia futuro.

Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee e presidente da APP Brasil.

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